Há alguns anos, parte do debate público se preocupava com a "normalização" do bolsonarismo. A palavra servia para criticar coisas distintas: descrever a extrema direita sem repulsa suficiente, deixar de tratá-la como pária ou reconhecer que já integrava a política ordinária. A crítica, contudo, raramente vinha acompanhada de uma explicação sobre o que estava sendo normalizado, por quem e com quais consequências.
Mas é preciso distinguir dois processos: a normalização, pela qual se reduzem o estigma e a repulsa a ideias, condutas e atores radicais na esfera pública, e o "mainstreaming", a incorporação de grupos radicais à política convencional como participantes legítimos e efetivos.No Brasil, ambos avançaram muito. O bolsonarismo não esperou que jornalistas ou intelectuais lhe concedessem um certificado de normalidade. Afinal, é uma escolha reiterada de quase metade do eleitorado, tem bancadas, governos, prefeituras, uma grande estrutura partidária, redes religiosas e apoio empresarial e do agronegócio. Mesmo com Jair Bolsonaro preso, doente e impedido de concorrer, nenhuma candidatura de direita parece capaz de disputar seriamente a Presidência sem conquistar sua base.
A antiga margem não foi simplesmente acolhida pelo centro: tornou-se o coração eleitoral da direita.














