O PL da Misoginia avançou no Congresso embalado por uma coalizão rara: nasceu na linguagem moral do progressismo, mas encontrou apoio no patriarcalismo protetor típico dos conservadores. O projeto, já aprovado no Senado e agora em fase decisiva de tramitação na Câmara, pretende transformar a misoginia em crime inafiançável, sob o argumento de que há uma lacuna jurídica na proteção das mulheres.
Mas uma proposta assim precisa demonstrar que seus benefícios superam os danos previsíveis de um tipo penal baseado em conceito tão elástico. É nesse ponto que a argumentação falha. Na semana passada, Tabata Amaral usou, como exemplo do que a nova lei deveria punir, alguns comentários online sobre a morte de uma jovem em um salto de "rope jump". Os posts continham deboche, alusões sexuais e referências a estupro e necrofilia.
O caso Marília Marz mostra o outro lado do mesmo problema. A cartunista da Folha publicou uma charge sobre os "penduricalhos" da magistratura, concebida antes da morte da juíza Mariana Ferreira, mas a coincidência entre a imagem de uma lápide e o falecimento da magistrada bastou para que fosse acusada de misoginia. A Fenaj aderiu à leitura de que o impacto simbólico da charge bastaria para condená-la, mesmo sem intenção, contexto ou cronologia que sustentassem a acusação.







