A transgressão na música se rende fácil. Ela nasce livre e fulgurosa. Um dia, já com um número de seguidores satisfatório, é revendida como rebeldia 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 À frente dos Paralamas do Sucesso, Herbert Vianna celebra os 40 anos de 'Selvagem?' no festival Doce Maravilha de 2026 — Foto: Pablo Porciuncula / AFP Acabei chorando por trás dos óculos escuros enquanto via Herbert Vianna tocar o riff de “Selvagem” com os dedos enrijecidos. Foi o ápice de uma tarde linda e difícil. Eu e mais um punhado de gente que foi ao Parque Ibirapuera no último sábado assistimos a um festival de rock com algumas das bandas mais rebeldes dos anos 1980 patrocinado por um banco. Um banco pagando o cachê de nossos “heróis antissistema”. Nos anos 80, quando “combater o sistema” era a primeira atribuição relevante de um jovem periférico, isso seria um problema. Hoje, não. Já sabemos que a transgressão na música se rende fácil. Ela nasce livre e fulgurosa. Um dia, ao mobilizar um número de seguidores satisfatório, é capturada em sacos plásticos, higienizada e revendida como rebeldia. Um truque que quase nenhum rebelde percebe. O uso da rebeldia para a vendagem em massa de LPs no Brasil foi feito pela primeira vez em 1965, quando a descoberta do poder de compra da juventude deu origem à Jovem Guarda. Era ainda a rebeldia doméstica, com os meninos deixando os cabelos crescer e as meninas se rebelando contra os pais para usarem as saias e as botas de Wanderléa sem imaginar o tamanho da indústria que alimentavam. Depois veio a contrarrebeldia rebelde da Tropicália, mais intelectualizada, menos rentável e, por tudo isso, mais breve. Até que, pouco mais de uma década depois, o rock nacional, que os cariocas chamam de BRock, cria a maior frente roqueira que o país já viu. Só um de seus expoentes, o RPM, vendeu quase quatro milhões de cópias de um único disco. O RPM é um caso à parte. Quando cheguei ao festival, Paulo Ricardo, sem o RPM, estava no palco. É o único sex symbol produzido em sua era. As pessoas ainda admiram sua beleza. Eu disse à senhorita que me acompanhava: “É uma música que parece não funcionar mais.” Ela dançava “Loiras geladas”: “As pessoas estão gostando.” E eu: “Então funciona.” Depois vieram os Titãs, e a minha resistência caiu. Primeiro tive a impressão de ver os escombros do monumento que um dia a banda foi, com apenas três integrantes originais. Mas depois, vendo Tony Bellotto vencer o câncer que o consome para cantar e fazer solos vigorosos ao lado de Branco Mello, em luta contra o mesmo mal, foi arrebatador. Tão mágico quanto ver Herbert Vianna, sobrevivente do acidente de ultraleve de 2001, que levou sua amada Lucy, tocar o riff de “Selvagem” em sua cadeira de rodas no show seguinte. Vivemos para ver as maiores rebeldias de nossos ídolos. A rebeldia que não se embala e não se vende, mas que inspira. Saí orgulhoso por ter esses caras como os meus heróis antissistema.
Meus herois antissistema
A transgressão na música se rende fácil. Ela nasce livre e fulgurosa. Um dia, já com um número de seguidores satisfatório, é revendida como rebeldia








