Em "Equilibrivm II", a estrela homenageia um Brasil exuberante e expõe sua fé e suas vulnerabilidades 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Anitta produziu um vídeo que supera os de Madonna. Chapeau. — Foto: Reprodução Não consigo olhar o lançamento do novo álbum de Anitta como “música”. É bem mais que isso. Na mensagem, no propósito, no resultado de altíssimo nível do filmete “Equilibrivm II”. A embalagem, o cuidado nos mínimos detalhes, é coisa de Primeiro Mundo. Só vi isso com Madonna. Achei hipnotizante. Desafio qualquer um a assistir aos 35 minutos, no Globoplay, sem se impressionar com a explosão de um Brasil tropical, plural e africano. Na fé. Nos ritmos. Nos corpos. Você pode ou não se orgulhar de nossas raízes. Mas esse novo projeto de Anitta a joga em outra definição de estrela pop mundial. E, insisto, não se trata de música. Não são só as referências abertas a Carmen Miranda. Mas à infelicidade de Marilyn Monroe. À exaustão de mulheres símbolos e solitárias. E ao sofrimento e vulnerabilidade de Frida Kahlo, numa imagem que a projeta numa cama. Morrer e renascer. O curta-metragem escancara nosso sincretismo religioso e cultural. As danças, em clipes muito bem realizados. Os figurantes, famosos e anônimos. A fotografia, os cenários, os figurinos e a direção de arte. As “viagens” sensoriais, do divino ao profano. A mistura de orixás, tarô, Exu, Nossa Senhora, rave indígena. MPB, cancioneiro popular. Samba. E, claro, funk. A reafirmação da sensualidade feminina como fonte de prazer. E de liberdade. A gratidão à mãe, a biológica e a sagrada. É muito para assimilar em meia hora. É uma salada, dirão críticos virando o nariz. É fácil para quem tem dinheiro, dirão ressentidos e invejosos. Um vídeo desses, dá pra imaginar o orçamento? Só de figurantes oficiais, 220. De artistas que colaboraram, Maria Bethania, Alceu, Mart’nalia, entre outros. Aqui escreve alguém que jamais foi fã da música de Anitta. Nem de funk rebolativo. O que não me impediu de escrever aqui uma vez sobre seu “bumbum poderoso”. A musculatura que joga pra cima um lado, e depois o outro. Nádegas com vida própria. Pintando o oito do infinito, com o jogo de joelhos e da bacia. Mas agora, é de outra carioca que falo. Mais madura, 33 anos, mais focada. Conectada com suas origens. Continua sendo “do povão”, marrenta e abusada. Tenta abrir horizontes, insatisfeita, tenta reinventar a imagem, retornar ao Brasil para não ser mais uma lá fora cantando em espanhol. Ela chama isso de “desacelerar”. Da carreira internacional. Diz que cansou de tentar agradar ao “olhar estrangeiro”. Anitta saiu do subúrbio de Honório Gurgel para ganhar uma infinidade de prêmios e mais de 60 milhões de seguidores no Instagram. Poucos sabem que foi batizada como Larissa. E que começou cantando em igreja. À fé, ela retorna. Anitta se diz regida pelo orixá Logun Edé, cultuado nos candomblés de origem yorubá, filho de Oxum e Oxóssi. Ela não convence como atriz. Mas a cena, no vídeo, com Elisa Lucinda, vale pelo diálogo e pela presença marcante da poeta, que faz uma preta velha passando ensinamentos ancestrais. “O único bem que não pode ser emprestado é o tempo”, diz a personagem de Elisa a Anitta. Algumas citações são emprestadas da escritora Conceição Evaristo. “O importante não é ser a primeira. O importante é abrir caminhos”. É o que Anitta se propõe a fazer. Inspirar mulheres a ser livres e rejeitar estereótipos. Tenta ignorar as “pedras que atiram contra ela”. Tem coragem para se reinventar e até desagradar aos fãs de sempre. Chapeau. No fundo, Anitta busca eternamente algo contido na música de abertura do v, “Taí”, de Carmen Miranda: “Eu fiz tudo pra você gostar de mim”. A estrela se sente só, apesar do sucesso.