Disco com faixas curtas, diretas e cheias de espiritualidade, aprofundado em seus diálogos com a tradição da música brasileira, mas também apontando para o futuro: este é o “Equilibrivm II”, segundo álbum que a cantora Anitta lança em 2026. No streaming desde as 21h da quinta-feira, ele não é apenas uma continuação do “Equilibrivm” que saiu em abril: é um ambicioso compêndio de MPB (a única faixa não cantada em português é uma versão em espanhol de “Azul”, de Djavan), com participações de Maria Bethânia e Alceu Valença. “Você já sabe” (com Los Brasileros). “Você já sabe quem chegou / só pelo toque do tambor”, canta Anitta, no refrão, ao adentrar o terreiro de “Equilibrivm II”. A faixa tem funk, maculelê e um recado fundamental ao entendimento do disco: “quem não pega o embalo do som / não entendeu a malandragem” “Sal grosso” (com Kbrum). Segue o baile funk, com muitas referências ao Candomblé e um tanto de sotaque jamaicano do dancehall no rap de Kbrum. A mansagem é: “em Madureira City, tem que respeitar!” “Não me cutuca” (com Alceu Valença). O baixo sintetizado de house music até engana, mas o balanço aqui é de xaxado. “É sempre bom lembrar / que não é bom mexer com a maluca / que eu tô quieta no meu canto / então não me cutuca”, versa Anitta, fazendo o milagre de encaixar a letra na métrica. A intervenção de Alceu é curta, mas poderosa. “Eu não sou santa” (com Mestrinho). Nordeste, religiosidade e ternura são as chaves dessa faixa, com voz e sanfona do convidado. “Feitiço” (com Mart'nália). As eletrônicas têm presença sutil, mas decisiva, em mais esse canto de terreiro de Anitta, com sample de J.B. de Carvalho, mítico cantor de pontos de macumba. “Tanta gente no mundo, olha só quem aqui tu foi testar / Logo eu, que te ensinei a dançar”, canta a convidada. “Ponta do pé”. Um daqueles sambas-pop lapidares, com sopros e um quê benjoriano, nos quais Anitta costuma deitar e rolar. “Eu, você e um litrão / já é o suficiente pra eu ficar / e não querer ir embora / hoje me escondo das horas”, canta ele, em uma das faixas mais contagiantes de “Equilibrivm II”. “Abre caminho” (com Alexandre Carlo). Baião-reggae com sabor (e o cantor do) Natiruts. Um canto de liberdade em formato de canção pop, que desliza em versos como “amor, quando é de verdade, desconhece a prisão”. “Tudo isso”. De novo, o reggae (mais especificamente, um típico lovers rock), com participação de Alice Caymmi na composição em letra de saborosas aliterações (“só erra quem tenta / e eu sou tão boa nisso / falhei, tá falhado / e não se falha mais nisso”). Capa de 'Equilibrivm II', álbum de Anitta — Foto: Reprodução “Sem pressa” (com MC Tha). Um afoxé dos bons, voltado para o tema do conforto espiritual, na certeza de que “a vida com pressa não presta”. “Deus Mãe” (com King Saints). Com sample de “Plantadeira” (Minuska Lima), um outro afoxé, com doce firmeza feminina e um sagaz rap da convidada, em louvação às matriarcas (“o meu cabelo é igual ao seu / eu falo igual a você / sua maluquice eu herdei”). “Ogum me rodeia” (com Maria Bethânia e Letícia Fialho). Tanto afoxé (esse aqui, embelezado por coros femininos) se explica: era a preparação para a chegada de Bethânia, sob o manto da fé brasileira. “Sua vitória é minha casa / nela, meu corpo não conhece ferida / conhece fé”, recita a cantora baiana (e a outra convidada, Letícia, revela uma encantadora voz). “Contemplação” (com Grupo Ofá). Quase um interlúdio, de grande beleza, no qual o disco desacelera simplesmente para... contemplar. E louvar. “Pra você gostar de mim”. A citação de “Taí” de Carmen Miranda serve de mote para mais uma incursão de Anitta pelo universo da bossa nova. “Divino sexual”. Resquícios da bossa respingam nessa faixa de caráter mais carnal e cinematográfico, sobre aquilo que a cantora reivindica como “só uma noite de amor no Rio” — mas com ressalvas para o fato de que “o sensual também é divino”. “Azul”. Anitta se sai com louvor da tarefa de levar Djavan para a língua espanhola. Simpática versão do sucesso de Gal Costa em 1982. “Respira”. Samba com sabor latino no qual a dona da festa se mostra mais descontraída do que nunca: “Pensei que eu já tava plena / mas ontem fiquei maluca”. “Oke” (com Brô MC’s e Katú Mirim). Com rap indígena, Anitta encerra o “Equilibrivm II”. “Nada na mata me mata / nada me escapa”, alerta a cantora nessa agitada e tensa faixa, que parece apontar para um próximo movimento de seu projeto de traduzir para os novos tempos as raízes do Brasil.