É impossível dar dimensão de todo o alcance da macumba na música brasileira. Há um sem-fim de sons que une antigos registros de pontos de terreiro em goma-laca a propostas modernas dissidentes da própria coluna vertebral dessas práticas religiosas —o ritmo, transformado em música eletrônica, como no BaianaSystem, ou em antítese, caso do trio Passo Torto.

Dá para contar nos dedos, contudo, quantos artistas fazem de seu palco uma encruzilhada para a música de prece e rito afro-brasileiro. No país em que o preconceito contra religiões de matriz africana é flagrante, há uma audácia bem-vinda em sua maior estrela pop se mostrar, de fato, macumbeira.

"Equilibrium 2" acentua o caminho aberto por Anitta desde alguns anos, quando ela declarou publicamente sua fé. O disco não faz proselitismo barato. Ao contrário, faz do universo desse mundo de rodas e outros planos um emaranhado pop divertido. Há momentos de pouca inspiração, letras inofensivas, mas o álbum é ponto alto na carreira da cantora. Um bálsamo rubro-negro em tempos de tanta carolice ou hedonismo barato.

"Você Já Sabe", faixa-abre, orienta a escuta. A partir dali, Anitta vai brilhar quando opera uma teogonia de sincretismo que une bailes e terreiros, funk e samba, capelinhas e templos, Marias e Padilhas, encantados de toda sorte —um arco vasto. Num simples e esperto jogo de harmonia, que mostra a dualidade a partir da voz da cantora, também fica nítido o dedo do trio Los Brasileros, que liderou a produção do projeto.