O jornalista Tom Cardoso consolidou uma grife na literatura musical brasileira ao se especializar na anatomia dos mitos da MPB sem se render ao tom laudatório que costuma pasteurizar o gênero no país. Depois de destrinchar as trajetórias de Caetano Veloso e Chico Buarque, Cardoso fecha uma trilogia informal da canção com "Nem tanto esotérico assim: seis vezes Gil", lançado pela Editora 34. A obra não se propõe a ser uma biografia definitiva ou uma cronologia exaustiva. Trata-se de um perfil analítico estruturado em seis ensaios temáticos que buscam decifrar as contradições que movem um dos personagens mais complexos da cultura nacional.

O título sintetiza o espírito da investigação. Gil, frequentemente associado ao misticismo, à busca espiritual e a uma suposta imaterialidade zen, é confrontado com sua porção mais terrena, pragmática e, por vezes, ambiciosa. Cardoso opera na fresta entre o mito público e o homem político, revelando que o cantor baiano maneja a diplomacia e o cálculo institucional com a mesma destreza com que dedilha o violão. A narrativa flui sem o peso das amarras cronológicas convencionais, o que permite ao autor cruzar épocas para iluminar os paradoxos do biografado.