Cadê o Gil, que não renega a gordofobia recreativa de ‘Chacrinha continua balançando a pança’? 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O cantor e compositor João Bosco — Foto: Guito Moreto RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 23/07/2026 - 22:54 Crítica Social Reavalia Obras de Chico Buarque e Ana Maria Machado Nos últimos dias, a crítica social tomou conta das discussões, com guardiães da virtude atacando figuras públicas por canções e obras literárias que, no passado, eram vistas sob outra luz. A música brasileira, de Chico Buarque a Roberto Carlos, foi alvo de revisão, abordando temas como gordofobia e assédio. A obra de Ana Maria Machado também entrou em debate, questionando representações de diversidade. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Os últimos dias foram tensos para a força-tarefa dos guardiães da virtude. Tiveram de convencer os alienados — aqueles que acham que futebol é um esporte — a não torcer pela França nem pela Inglaterra, impérios coloniais responsáveis pela miséria de meio mundo. Muito menos pela Argentina (terra de gente que não perde uma oportunidade de nos lembrar que somos da linhagem dos primatas) ou pela Espanha (que dizimou povos originários, queimou bruxas e tortura touros). Restaram Curaçao e Cabo Verde — e olhe lá. Já que estavam de archotes e ancinhos em punho, aproveitaram o embalo para entrar em modo autofagia, atacando personalidades com bons serviços prestados às causas sociais, à defesa da liberdade e dos valores democráticos. Sobrou para João Bosco e as crônicas musicais em parceria com Aldir Blanc, e para Ana Maria Machado e sua atuação na formação de novos leitores, com uma literatura infantojuvenil engajada e criativa. Um livro de Ana Maria, que trata de autoaceitação, respeito às diferenças e reconhecimento da beleza da diversidade, virou obra de uma sinhazinha branca sem letramento racial. O retrato do vascaíno machista e violento, que se sente traído quando a mulher comemora um gol do Zico, foi interpretado como abordagem acrítica e omissa, indigna dos sensíveis ouvidos de agora. Ciente dos privilégios e culpas de tataraneto de escravocrata e enquanto macho em desintoxicação, quero despejar meu galão de gasolina nesse debate e trazer uma lista de canções cujo prazo de validade venceu. Na falta de uma Vigilância Sanitária Cultural que as recolha, urge evitar: “Nos bailes da vida” (“ou num bar em troca de pão”), em que Milton & Brant romantizam o trabalho análogo à escravidão. Melhor “num bar com direitos trabalhistas/e carteira assinada na mão”, que mantém a rima e garante o FGTS do artista. Mas cadê o Gil, que não renega a gordofobia recreativa de “Chacrinha continua balançando a pança” e o etarismo de “velho palhaço”? Como manter o tom civilizado e cantar “Passarinho na mão/pedra de atiradeira/É uma ave no céu/é uma ave no chão”, um flagrante crime ambiental? Além de ser gatilho de suicídio, “Construção”, de Chico Buarque, não questiona o trabalho aos sábados e a famigerada escala 6x1. Um paliativo seria fazer com que o operário, em vez de se acabar no chão atrapalhando o tráfego, procurasse o RH na sexta-feira e pedisse afastamento por burnout. Chico não terá dificuldade em adaptar a letra e encaixar médico, diagnóstico, jurídico e benefício — que pode não ser proparoxítona, mas é uma solução. “Detalhes” fala de ameaça (“Não adianta nem tentar me esquecer/Durante muito tempo em sua vida eu vou viver”). “Carinhoso” é uma ode ao assédio (“E os meus olhos ficam sorrindo/E pelas ruas vão te seguindo/Mas mesmo assim/Foges de mim”). Idem para “Minha teimosia, uma arma pra te conquistar” (“Eu vou vencer pelo cansaço/Até você gostar de mim, mulher”). Benjor, Pixinguinha, João de Barro, Roberto e Erasmo têm de entender que “não” é “não”. Mais grave é “Ronda”, que começa com stalking (“De noite/Eu rondo a cidade/A te procurar”) e acaba em homicídio qualificado (“Cena de sangue num bar/Da Avenida São João”). Talvez precise mexer na melodia, mas dá para Bethânia mantê-la no repertório se mudar para “Cena de assinatura de termo de ajustamento de conduta/E pedido de reconciliação”. Os livros eu queimo sábado que vem.