Ana Maria Machado e João Bosco, duas figuras históricas da cultura brasileira, ligadas à resistência à ditadura e à defesa de valores progressistas, foram levados ao tribunal moral das redes, não porque tenham passado a defender o racismo ou a violência contra a mulher, mas porque cruzaram o caminho das expedições sazonais de caça da política identitária e recusaram o papel de culpados que lhes reservaram.

Ela rejeitou a revisão retrospectiva de "Menina Bonita do Laço de Fita", livro pioneiro no esforço de elevar a autoestima de crianças negras, segundo o catecismo do presente. Ele se recusou a retirar do repertório "Gol Anulado", parceria com Aldir Blanc, uma crônica sobre uma conduta condenável —que nem de longe o cantor recomenda. Nada disso, porém, importava muito: a acusação dependia menos do sentido das obras do que da necessidade social que certos grupos têm de exibir o próprio fervor moral por contraste com o pecado dos outros.

Ilustração de Ariel Severino para coluna de Wilson Gomes de 29 de julho de 2026 - Ariel Severino/Folhapress

As patrulhas respondem a uma necessidade interna. Se o mundo é interpretado como guerra permanente entre identidades opressoras e oprimidas, é preciso produzir sem cessar novas provas de que a opressão continua ativa e de que o combate exige vigilância. Uma semana sem denúncia de pecados é uma semana perdida na luta política, que agora é entendida basicamente como um conflito moral.