Tem coisa mais perigosa para o debate público do que a arte que incomoda: a obsessão por uma cultura higienizada que não incomode ninguém. Nos últimos dias, João Bosco virou alvo por "Gol Anulado", música lançada há 50 anos, em que o personagem agride a mulher.
Carla Madeira enfrenta há anos a crítica de quem jura que o romance "Tudo é Rio" romantiza a violência. A régua é idêntica à que a extrema direita usou ao fechar a exposição "Queermuseu": a falsa premissa de que retratar o horror equivale a endossá-lo.A estrutura mental da censura não tem ideologia e opera confundindo crônica com incentivo. "Lolita" é narrado por um pedófilo e segue como uma das maiores obras-primas da literatura. Assim como "Capitães da Areia", que acabou queimado em praça pública, em 1937, por mostrar a vida de meninos de rua sem o glacê da benevolência. Lamento informar, mas nem no catecismo a criação se limita a exibir pessoas virtuosas.
O anacronismo seletivo fica escancarado quando comparado ao presente. Enquanto composições históricas e obras literárias são esquartejadas sob a lupa da correção política, letras de funk com apologia do estupro e da misoginia dominam o topo do Spotify em 2026 e embalam festas adolescentes sem gerar muita comoção.






