A montagem de "Valsa nº 6" pelas mãos do diretor Jorge Farjalla, mostra como a força de um clássico se renova quando ele encosta nas urgências de agora. Longe de ser uma mera remontagem, o espetáculo, que estreia nesta sexta-feira (3), propõe uma leitura viva, que joga luz sobre feridas sociais latentes e transforma o ato teatral em um exercício partilhado de escuta e denúncia.
Único monólogo de Nelson Rodrigues, a peça acompanha Sônia, uma adolescente de 15 anos que, já morta, tenta colar os pedaços de suas memórias para reconstruir a própria vida e o próprio assassinato. A engenhosidade trágica de Nelson sempre esteve em dar o protagonismo à vítima, e não ao crime ou ao algoz.
Farjalla, contudo, radicaliza esse gesto ao mirar de frente o abuso e a violência contra mulheres e crianças. O texto rodriguiano vira vetor para escancarar a cultura do silenciamento e a opressão que continuam a interromper a vida de tantas "Sônias" pelo país. É essa escolha que dá à montagem seu caráter marcadamente político, transformando a cena em território de reflexão e acolhimento.
Essa leitura se materializa na própria física do espaço. Ao dispor o público em uma arena de apenas 40 cadeiras posicionadas em cima do palco, Farjalla dita a chave estética da peça. A proximidade radical entre a atriz e a plateia anula a distância segura do espectador comum. Ali, ninguém assiste de longe.






