O debate público nutre, de longa data, uma relação ambígua com a barbárie. A frase que virou meme e passou a circular com uma naturalidade assustadora entrega a dimensão da nossa degradação moral: "antes uma Elize Matsunaga do que uma Elisa Samudio". A gente conhece as referências. A questão é: a única alternativa reservada às mulheres neste país é escolher entre ser morta ou virar esquartejadora de marido?
Com a estreia do filme Elize: Sombras de uma Mulher, na Netflix, as redes foram inundadas por centenas de comentários que tratam a protagonista, inspirada na personagem da vida real, como uma espécie de vingadora injustiçada. Uma mulher que teria apenas "reagido", "vítima" de um histórico violento que enfrentava desde sua infância e adolescência.
É preciso fazer um malabarismo mental que apague a história e a cronologia do crime para transformar Elize numa heroína pop. Não houve surto, não houve legítima defesa, não foi no calor do momento. O que teve foi uma logística bastante organizada. Ela deu um tiro na cabeça do marido, saiu do apartamento, comprou facas e malas, voltou para casa, esquartejou o corpo em sete partes durante seis horas. Na própria confissão, deixou o motivo claro: a descoberta de uma traição, o medo de perder a guarda da filha e o padrão de vida conquistado no casamento.











