Ao GLOBO, o baterista reflete sobre a longevidade da banda e a função social da música; com Herbert Vianna e Bi Ribeiro, ele recriou uma foto icônica do começo da carreira do grupo 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Bi Ribeiro, Herbert Vianna e João Barone em 2026 — Foto: Guito Moreto Quatro décadas depois de seu lançamento, "Selvagem?" continua assustadoramente atual. Neste domingo (9), Os Paralamas do Sucesso sobem ao palco do festival Doce Maravilha, no Rio de Janeiro, para celebrar o álbum de 1986 que reúne clássicos como "Alagados" e "Teerã". Em entrevista ao GLOBO, o baterista João Barone — que completou 64 anos na última quarta-feira — reflete sobre a longevidade da banda, o papel social da música e o incômodo de perceber que muitas das questões levantadas pelo disco permanecem sem resposta. No dia do seu aniversário, com os companheiros de banda Herbert Vianna e Bi Ribeiro, Barone também recriou uma foto icônica do começo da carreira do grupo. Veja abaixo a foto e os destaques da entrevista: Bi Ribeiro, Herbert Vianna e João Barone em 1982 — Foto: Maurício Valladares Bi Ribeiro, Herbert Vianna e João Barone em 2026 — Foto: Guito Moreto Música que atravessa gerações BARONE — O Herbert sempre falou sobre fazermos o trabalho com espontaneidade. As músicas são "vômitos emocionais". Acho que grande parte disso se deve ao discurso do Herbert. Ele sabe usar as palavras de maneira brilhante em músicas que cantamos há mais de 40 anos. E ele nunca quis ser "Herbert mais banda", mas Os Paralamas do Sucesso. Sempre tivemos espaço e a resultante é essa, nossas músicas que parecem não ter o prazo de validade vencido. A geração 80 tem esse mérito de colocar o rock dentro da música popular brasileira. Atualidade do 'Selvagem?' (1986) BARONE — É terrivelmente perturbador você perceber o quanto as músicas continuam atuais. E de como estamos vivendo um retrocesso global em questões humanitárias numa época em que devíamos estar com muitos avanços. Ainda tropeçamos em questões que estão aí desde a redemocratização do Brasil, naquele momento em que vivemos uma sensação de liberdade total quando terminou a ditadura. De repente, a caretice voltou com muita força. É impressionante esse sentimento de retrocesso humanitário. Desde sempre a nossa questão foi colocar nas músicas as mazelas do Brasil e chamar a atenção para esse choque civilizatório das diferenças do país: sendo tão rico, por que não distribui cidadania para todo mundo? Se distribuíssem violinos nas comunidades, não haveria a galerinha pegando no fuzil. "Selvagem?" é a resposta que tentamos dar depois de termos viajado o Brasil todo pós Rock in Rio de 1985. Falamos: "Caramba, vimos riqueza para todo lado, do Sul ao Nordeste. Por que seguimos tropeçando nesse processo de dar cidadania para todo mundo viver mais feliz?". As conquistas BARONE — Em "Selvagem?", arriscamos tudo para ficar diferente da manada (risos). Nunca abrimos concessões comerciais e oportunistas. A gente se orgulha muito desse álbum. Depois dele, nos firmamos na ribalta. A partir dali podíamos fazer o que quiséssemos, já tínhamos provado tudo. E temos um retorno comercial muito grande até hoje, lotando as casas de shows por onde passamos. Estamos querendo gravar um álbum novo, estamos sentindo falta. Temos controle total da nossa agenda e das nossas vontades. Isso é um privilégio muito grande. As 'funções' da música BARONE — Com certeza (a música tem alguma função). O artista em si é um agente causador de algum efeito. Seja para esquecer da dura realidade, e "Alagados" fala disso, ou conscientizar as pessoas. Nenhum artista é obrigado a ter um posicionamento político. A arte pode ser entretenimento, mas é uma forma de conscientização ao mesmo tempo. Os Paralamas estão aí até hoje com essa diversidade: temos baladas de amor maravilhosas e letras que falam da realidade sociocultural do Brasil. Podemos orbitar isso sem nenhum problema. Artista é meio camaleão mesmo, funciona em várias vertentes. 'Não tem remédio que substitua' os encontros com o público BARONE — Se tem uma coisa que não mudou desde o início é essa nossa grande satisfação de estarmos juntos tocando. Isso sempre orientou a banda. Temos uma ligação muito forte que foi se solidificando ao longo do tempo com a nossa confiança mútua. Tudo funciona tão bem. A gente gosta muito do que faz, e por isso superamos qualquer eventualidade (voos, hotéis e etc) para estarmos na frente da plateia. O Herbert fala que não tem remédio que substitua isso. Queremos preservar isso. Enquanto esses aspectos externos continuarem funcionando... por enquanto tudo funciona bem. Não existe fórmula matemática, é etéreo. Nossa ligação é muito forte.
'É perturbador perceber o quanto as nossas músicas de 40 anos continuam atuais', diz João Barone, dos Paralamas
Ao GLOBO, o baterista reflete sobre a longevidade da banda e a função social da música; com Herbert Vianna e Bi Ribeiro, ele recriou uma foto icônica do começo da carreira do grupo






