O estilo de vida dos roqueiros pioneiros que abriram a estrada para a grande festa do Rock in Rio 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 A juventude transviada — Foto: Ilustração gerada por IA A juventude era transviada. Para deixar bem claro quão rebeldes eram, os rapazes usavam brim-Coringa-não-encolhe com a bainha dobrada, alpargatas Roda, pente Flamengo no topete-Gumex – e eu estou me lembrando disso porque começa esta semana o Rock in Rio, o festival agora escrito em caixa alta. Eu estava lá, no tempo em que rock in rio era em caixa baixa e, na contestação dos valores borocoxôs, soltava-se barbantinho cheiroso para estragar a festa. Era bárbaro! Para exacerbar ainda mais a provocação trazida pelo novo ritmo, um rapaz devia vestir camisa vermelha e botar na garupa da lambreta o broto num biquíni de bolinha amarelinha tão pequenininho que na palma da mão se escondia. Foi no tempo em que elas não menstruavam – naqueles dias, ficavam apenas incomodadas. Foi antes, bem antes das Preparadas, das Popozudas e da Demi Lovato, atração do dia 12, aquela que canta “Vadia/ Eu agora comando o show”. As garotas do rock in rio eram chamadas, as mais românticas, de “Ternurinha”. As rebeldes, que estavam por dentro de tudo e só namoravam caras cabeludos, essas eram as garotas papo firme. Eu conheci uma que no terceiro encontro – Meu Deus! Como era prafrentex! – já beijava na boca. Sessenta anos antes dos coreanos do K-pop bem-comportados, os primeiros roqueiros in rio tinham cara de bandido e aos 15 anos já tinham ganhado do pai, como passaporte para a maturidade, um canivete suíço com estiletes para brigas de turma e outros para cortar e lixar unha. À noite, os roqueiros in rio empastavam o cabelo com babosa, geralmente plantada no quintal de casa, e se punham na cama para dormir usando meias femininas na cabeça. Roberto, o “Brasa”, e Erasmo, o “Tremendão”, deixavam a machosfera de lado. Queriam alisar o cabelo e virar um Elvis, um Neil Sedaka. A rebeldia era branca. Uma roqueira tomava banho de lua na esperança de ficar branca como a neve. Um Rock in Rio do futuro deveria ter um palco para homenagear esses pioneiros, lembrar como foram transgressores para a época. Avançaram na contramão de algumas convenções, se fizeram de lobo mau e entraram na rua Augusta a 120 por hora. Sexo, só o splish-splash – todo mundo olhando e condenando – no escurinho do cinema. Ninguém sentava, ninguém dançava na boquinha da garrafa de Crush. Alguns rapazes, na ânsia louca por essa vivência, faziam-se acompanhar nas horas mais solitárias de “catecismos”, as revistinhas eróticas sacanamente desenhadas por Carlos Zéfiro (soube-se depois, um pacato funcionário do INSS). Os mais conservadores embalavam a imaginação com revistas suecas fotografadas em campos de nudismo. Eram fotos estranhas – todas as mulheres eram pubicamente glabras. Esses roqueiros in rio, na vanguarda do comportamento, sofriam perseguição policial e uma das mais extravagantes era a do delegado Padilha, de Copacabana. Ele não gostava das calças de bocas apertadas. Promovia, então, um teste que consistia em jogar um limão calça adentro – se não passasse pela boca, o jovem era preso por atentado aos bons costumes. Esse rock in rio, dos primeiros rebeldes, deu no belo festival que começa esta semana e principalmente na liberdade de viver a juventude com as calças e o que mais se quisesse. Qual o problema, delegado Padilha, de celebrar a sessão de estreia de um filme de rock jogando no meio da plateia uma galinha viva?
Antes do K-pop, a juventude transviada
O estilo de vida dos roqueiros pioneiros que abriram a estrada para a grande festa do Rock in Rio








