Sem carteirinha, certificado ou manifesto, é difícil dizer quem começou o movimento punk no Brasil. Iniciado em 1976, muitos no país reivindicam a vanguarda do movimento, numa briga constante entre São Paulo, Brasília e Salvador. Fato é que, quase meio século depois de chegar à capital paulista, desafiando a ditadura militar e transformando a paisagem urbana, o punk continua vivo. Está menos visível, é verdade, mas vivo. Os moicanos já não causam espanto, os coletes cheios de patches foram absorvidos pela moda e as tatuagens e piercings, outrora símbolos de marginalidade, tornaram-se parte do cotidiano. São Paulo ajudou a consolidar um dos maiores movimentos punk da América Latina, e segue produzindo bandas, ocupando casas de shows e discutindo, em novas linguagens, problemas análogos àqueles que impulsionaram as primeiras bandas e coletivos. Se nos anos 1970 a revolta falava sobre desemprego, violência policial, ditadura e abandono da periferia, em 2026 os temas são trabalho por aplicativos, empregos precários, escala 6x1, custo de vida e avanço do conservadorismo. — Hoje o punk é estabelecido como um estilo musical — resume Clemente Nascimento, fundador do Restos de Nada e dos Inocentes, duas das bandas mais importantes da história do gênero no país. — Continua surgindo banda nova. O punk nunca deixou de existir. Talvez tenha deixado de ser novidade. A observação ajuda a explicar um paradoxo. Em 1982, cerca de quatro mil pessoas ocuparam o Sesc Pompeia para assistir ao festival O Começo do Fim do Mundo, considerado o maior encontro punk da história do país. Quarenta e quatro anos depois, a cena permanece ativa, mas dividida em centenas de pequenos eventos. Da Freguesia do Ó A história do punk paulistano começa antes das famosas reuniões na Estação São Bento, no Centro da cidade. É aí que entra Ariel Uliana Júnior, integrante da formação original do Restos de Nada. Hoje com mais de 60 anos, Ariel fala do movimento com a memória de quem o viu nascer. Segundo ele, em meados dos anos 1970, já existiam pequenos grupos de jovens nos bairros da Freguesia do Ó, Vila Carolina e Limão, na Zona Norte, consumindo música estrangeira e procurando algo que escapasse do que era oferecido pelas rádios. Ariel conta que o movimento começou com a frustração dos jovens com o avanço do rock melódico e progressivo, que alcançava seu auge nos anos 1970 com bandas como Pink Floyd, Yes e King Crimson. Essa insatisfação encontrou vazão quando, entre trocas de fitas e encontros sociais, os jovens foram apresentados a bandas como Ramones, Sex Pistols e The Clash. O acesso ainda era precário, e encontrar alguém com um LP ou uma fita era coisa rara na época. — Desde 1974, 1975, a gente já tinha grupos aqui escutando coisas diferentes. Era tudo muito isolado. Você conhecia alguém que conhecia alguém e, de repente, descobria que tinha outro cara ouvindo Ramones ou Sex Pistols do outro lado da cidade — diz Ariel. Shows em Escola e salão de igreja Poucos anos depois, em 1977, começaram os ensaios do Restos de Nada, banda que se tornaria um dos pilares do punk brasileiro. Um ano depois, já tocavam em escolas, salões paroquiais e qualquer espaço disposto a recebê-los. — A gente tocava onde deixassem. Escola, salão de igreja, garagem. Não existia circuito, não existia nada. A gente criou tudo do nada — aponta Ariel, que resume uma das principais características do movimento: o faça-você-mesmo (DIY, do inglês “do it yourself”). Sem acesso à indústria fonográfica, os punks produziram seus próprios discos, camisetas, fanzines, cartazes e redes de distribuição. Criaram um ecossistema cultural paralelo décadas antes de a internet facilitar a comunicação entre nichos. Na virada dos anos 1970 para os anos 1980, São Paulo reunia dezenas de grupos espalhados pela periferia. O deslocamento para o Centro da cidade acabou transformando a Estação São Bento num ponto de encontro para quem integrava o movimento. — Aqui eram 50, cem punks por essa região toda. A gente lotava um ônibus para ir para a São Bento — lembra Ariel. A estação funcionava como uma espécie de rede social analógica. Ali circulavam fitas cassete, informações sobre shows, novos discos e contatos de pessoas que moravam em bairros completamente diferentes. — Cada bairro parecia uma cidade. A gente não tinha contato um com o outro, mas tinha os mesmos desejos, a mesma repressão, os mesmos problemas — continua o músico. Bandas atuais e o discurso que continua O contexto político também ajudou a moldar o movimento. O Brasil ainda vivia os últimos anos da ditadura militar. A censura permanecia ativa e as abordagens policiais eram frequentes. Ariel lembra por exemplo que uma das músicas do grupo chegou a ser vetada. Batizada de “Miséria e fome”, a canção só passou pelo crivo dos censores após ser rebatizada para “Humanidade perdida”. Para o músico, meio século depois, uma das maiores surpresas é perceber que muitos dos temas combatidos pelo punk continuam atuais. — A gente não imaginava que ia chegar nesse ponto de conservadorismo de novo. Existe racismo, existe fascismo, existe misoginia, existe homofobia, e parece que as pessoas que praticam isso tudo multiplicaram — diz Ariel, acrescentando que, se com o passar dos anos a estética perdeu sua força transgressora, o discurso punk continua dialogando com o jovem. Esse aspecto fica evidente quando Clemente menciona bandas como Punho de Mahin, Sociopatas e Pátios Tolerados, que atestam que o movimento continua se renovando. — Tem muito adolescente indo a show. O pessoal acha que acabou porque não passa na televisão. Mas o punk nunca dependeu da televisão — diz ele. Nesse ponto entram as redes sociais, que têm uma relação ambígua com o movimento: são fundamentais para divulgar eventos, mas impõem uma lógica que contradiz a natureza do punk. — O algoritmo privilegia o que dá dinheiro — diz Clemente. — E o punk nunca foi sobre isso. Mesmo com essa idiossincrasia, os músicos celebram a facilidade com que a comunicação é feita hoje em dia. No seu tempo, lembram, a cena punk internacional era sustentada por uma rede de cartas enviadas pelo correio. Era por meio delas que bandas trocavam discos, fanzines, fotografias, adesivos e até pequenos pacotes de café com músicos de outros países, como destacam Clemente e Ariel. A criatividade também aparecia na hora de driblar os custos desse intercâmbio. Como os selos internacionais eram caros, os músicos desenvolveram técnicas para reutilizá-los. Uma das mais comuns consistia em aplicar uma fina camada de cola branca sobre o selo antes do envio. Assim, quando a correspondência recebia o carimbo dos Correios, era possível destacar a película para usar o selo novamente em outra carta. Esse intercâmbio e a força do movimento talvez tenha alcançado seu auge no festival O Começo do Fim do Mundo, que entrou para a História como o principal marco da consolidação do punk brasileiro. — Foi sensacional. Praticamente todo mundo do movimento estava ali — recorda Ariel, ressaltando que o festival permitiu que se percebesse a dimensão de um movimento que, até então, parecia fragmentado. — Você via toda a cultura representada. De repente, estava todo mundo junto. A convivência, porém, não foi exatamente pacífica. O punk sempre conviveu com divisões internas, rivalidades entre bairros e disputas ideológicas. Para o punk do ABC Paulista, por exemplo, o punk da capital era metido e soberbo. Para o punk do Centro, o da periferia tinha pouca referência e era limitado. Para o festival acontecer, foi necessário ter uma série de “shows de pacificação”, além de conversas e compromissos que foram adotados para que não houvesse brigas no Sesc Pompeia. Um deles foi a divisão igualitária entre as apresentações de bandas do ABC e do Centro. Mesmo assim, no último dia, houve confrontos e intervenção policial. — Quem criou a confusão foi a polícia. Eram os mesmos caras que davam geral na gente — diz Ariel. Se o festival representou o auge da visibilidade do movimento, as décadas seguintes não encontraram tanto holofote. Ao longo dos anos, o punk foi declarado morto inúmeras vezes. Sobreviveu ao fim da ditadura, à explosão do rock brasileiro dos anos 1980, à ascensão do grunge, ao domínio do sertanejo, ao streaming e às redes sociais. Também sobreviveu à apropriação de sua própria imagem. — A gente mudou a forma de se vestir nas metrópoles — afirma Ariel. — Eu não vejo nada negativo nisso. Mostra que a gente foi criativo. Madonna usou roupa de punk. Quando querem dizer que alguma coisa é radical, falam: “Isso é punk.” Segundo ele, a estética punk, que hoje está integrada no cenário da cidade, nunca foi apenas uma escolha visual, mas uma manifestação política. Os alfinetes, as roupas rasgadas e os objetos reaproveitados refletiam a realidade de jovens da periferia durante a ditadura. — A gente vestia o lixo que a sociedade dizia que a gente era — resume. — Era uma forma de mostrar: é isso que vocês enxergam na gente? Então vamos devolver isso para vocês. Pesquisador, colecionador e conhecido na cena como “arqueólogo do punk”, Mateus Mondinio elege, como “marco zero” do movimento brasileiro, a publicação da revista Pop Apresenta Punk Rock, lançada em 1977, que apresentou ao público nacional bandas como Ramones, The Clash e Runaways. Ele também chama atenção para um aspecto frequentemente esquecido: o punk brasileiro nunca foi uma simples cópia do movimento inglês. — O mainstream era muito inglês, mas as bandas daqui foram igualmente influenciadas pelo punk americano, finlandês e sueco — explica Mondinio, reforçando que a mistura dessas referências ajudou a moldar um movimento mais agressivo e politizado, profundamente conectado à realidade das periferias paulistanas. — Como a maioria dos punks era do proletariado e não tinha dinheiro para comprar discos importados, as fitas cassete tiveram um papel fundamental. Galeria do Rock e as redes Mondini destaca, por exemplo, a figura de Fábio Sampaio, vocalista do Olho Seco e dono da loja Punk Rock, na Galeria do Rock, que produzia coletâneas vendidas por uma fração do preço dos discos importados. Para o pesquisador, a folclórica estação São Bento cumpria uma função que hoje seria facilmente associada às redes sociais. Era ali que circulavam fitas, telefones e notícias sobre shows e surgiam amizades. — A São Bento era uma espécie de internet analógica. Você encontrava pessoas de bairros diferentes e percebia que havia uma geração inteira vivendo os mesmos problemas — diz o pesquisador, que bota fé no futuro do movimento. — Sempre vai ter um moleque descontente, e o punk entra nisso daí. Faz a música do jeito que quer, faz o protesto do jeito que quer, não importa se tem estudo ou não. E como dá. E enquanto tiver um moleque, sabe, descontente, o punk vai servir de base.