Mariana recebeu o diagnóstico em uma tarde morna e sem poesia. Aos 22, ela ganhou um carimbo no prontuário e uma receita azul que dobrava ao meio como quem guarda um segredo. As crises de ansiedade que a derrubavam no supermercado e a acordavam de madrugada sumiram em três semanas.

Sumiram os poemas também. Desapareceram os versos que ela rabiscava e as metáforas que brotavam no chuveiro. Mariana ficou funcional e bonita nas redes sociais e morta por dentro que nem paisagem de shopping center. Ela disse em uma sessão de terapia que era como se tivessem desligado o barulho da alma. Desligaram o barulho e deixaram um silêncio educado e asséptico que não grita, mas também não canta.

Mariana não é um caso isolado. Ela é o retrato de uma época que decidiu que sentir dói, doer é doença e doença se medica até a apatia ficar com cara de saúde.

A planície emocional virou meta de bem-estar, e a ausência de susto virou sinônimo de maturidade. Construímos um mundo onde a tristeza virou transtorno depressivo e a angústia existencial virou ansiedade generalizada com código no catálogo internacional de doenças. O catálogo não tem código para a paixão da alma e não tem rubrica para a noite escura. O que não tem código não existe para o convênio, e a gente finge que é frescura.