Teorias conspiratórias cumprem sua função. Em primeiro lugar, representam um atalho no raciocínio. A conexão espúria dá conta de explicar, de forma simples e errada, situações complexas. Além disso, garantem ao sabichão certo ar de superioridade, como se só ele fosse esperto o suficiente para desvendar o outro lado da história. A tese de que os juros no Brasil são altos porque os bancos assim o desejam faz parte desse repertório.Por mais que seja atraente, essa ideia não parece ter suporte nas evidências. A rentabilidade do sistema financeiro ao longo do tempo simplesmente não acompanha a taxa de juros. Com efeito, a correlação entre a média móvel de quatro trimestres do retorno sobre o capital das empresas abertas do mercado financeiro e a taxa média anual da Selic dos últimos 30 anos é de míseros -0,001. Ou seja, não há correlação alguma.A Selic na estratosfera vem estimulando a saída do investidor de fundos mais agressivos, que cobram caro, para fundos DI, que cobram bem menos Foto: Comugnero Silvana/Adobe StockPUBLICIDADEO que ocorre é que, quando os juros bancários sobem, a inadimplência também sobe. A correlação entre essas duas variáveis, nesse caso para os últimos 15 anos, é alta (67%). Mas os bancos, ao contrário da maioria dos outros setores, têm como se defender. Quando a inadimplência sobe, os spreads (a diferença entre os juros bancários e a Selic) também se elevam (correlação de 68%), o que acaba preservando a rentabilidade do setor.Um corolário da tese conspiratória de que os bancos ganham muito com os juros altos é pensar que os economistas do mercado exageram propositalmente nas previsões de inflação, na tentativa de induzir o Banco Central a elevar a Selic. Aqui também a ideia é boa, mas a evidência é contrária. Entre 2010 e 2025, as previsões para o IPCA feitas com um ano de antecedência acumularam 115,9%, ante um IPCA de 145,3%.Contrariando a reputação, os economistas foram otimistas. Se para o crédito bancário os juros são neutros, para as atividades de gestão de recursos, os juros altos podem ser um flagelo. PublicidadeA Selic na estratosfera vem estimulando a saída do investidor de fundos mais agressivos, que cobram caro, para fundos DI, que cobram bem menos. Entre dezembro de 2022 e junho de 2026, os fundos multimercados, que cobram usualmente 2% de taxa ao ano, mais taxa de performance, perderam 5,4% do patrimônio.No mesmo período, o patrimônio dos fundos de renda fixa avançou 68,3%, segundo os dados da Anbima. Isso representa grande perda de receita, o que causa dificuldades para gestores independentes.Juros altos não decorrem de lobby do mercado financeiro. As razões para essa anormalidade devem ser buscadas na ineficiência da política monetária, por sua vez explicada, em grande medida, pela frouxidão da política fiscal. O sistema político que criamos desestimula escolhas difíceis. Prevalece a conveniência efêmera do aumento dos gastos. O futuro fica para depois. Veremos. Vale ler tambémPor que a alta renda não está compensando a isenção do IR para quem ganha até R$ 5 mil?GFS amplia capacidade com fábrica de R$ 55 miNão há um programa de proteção de seguros a serviço das classes C e D, as menos favorecidas