O Brasil anda sobressaltado com a descoberta de uma dessas verdades inconvenientes da economia: os juros estratosféricos são o produto da irresponsabilidade fiscal e o Banco Central é apenas o mensageiro.PUBLICIDADEÉ ótimo para a estabilidade das instituições que haja esse “intermediário”, pois fica parecendo que é ele o culpado e que os políticos gastadores são inocentes. Que político gostaria de admitir que, ao fazer emendas para trazer dinheiro para suas comunidades, ou ao criar programas sociais com dinheiro que não existe, está fazendo subir os juros?Claro que o mensageiro precisa ser claro nas suas mensagens, o que nem sempre acontece. O presidente Galípolo afirmou que no seu último comunicado o BC “explicou demais”.O governo deve cerca de 80% do PIB, algo como R$ 10 trilhões: como somos cerca de 213 milhões de brasileiros, cada um de nós deve R$ 50 mil só por respirar Foto: Adobe StockCuriosa coincidência: nesta semana que passou, deixou esse mundo, aos 100 anos de idade, Alan Greenspan, o lendário presidente do Fed que, a propósito desse assunto de explicações deixou uma pérola (tradução minha): “Se você me entendeu claramente é porque eu não me expliquei direito”.Pois bem, eis a tese: não é o BCB quem faz o juro, como o produto de sua vontade, é preciso honrar os “fundamentos”. O BCB apenas precisa saber ler os “fundamentos” para retratá-los fielmente, ou ao menos para não os desafiar.PublicidadeNos últimos tempos tem-se assentado a ideia de que o “fundamento” básico para os juros é a questão fiscal, uma ideia meio óbvia: quanto piores as contas públicas, maiores os juros.A explicação é simples: o governo é o maior de todos os endividados. Deve cerca de 80% do PIB, algo como R$ 10 trilhões, ou USD 2,5 trilhões. Como somos cerca de 213 milhões de brasileiros, cada um de nós deve USD 10 mil (R$ 50 mil) só por respirar.E, se nada for feito, a demografia vai piorar, bem como as finanças públicas, de modo que a cegonha vai entregar a próxima geração já direto na Serasa.O ritmo desse progressivo endividamento do governo determina os termos de troca entre o presente e o futuro. O que se passa no mundo do crédito quando aparece um mutuário para “rolar” um papagaio de R$ 10 trilhões?Nesse contexto, a taxa de juros para a dívida do governo domina a formação de todas as outras taxas de todos os outros prazos e tomadores.PublicidadeEssa lógica se sobrepõe às conexões entre os juros e a inflação. A inflação é uma doença da moeda, mas não é uma doença simples. Não obstante, é fácil ver que a doença pode se tornar crítica se a irresponsabilidade fiscal se tornar uma explosão de papel pintado ou de endividamento.
Opinião | O mensageiro dos juros: o BC leva a culpa, enquanto os políticos gastadores se passam por inocentes
Que político gostaria de admitir que, ao fazer emendas para trazer dinheiro para suas comunidades, ou ao criar programas sociais com dinheiro que não existe, está fazendo subir os juros?













