A Secretaria-Executiva do Ministério do Planejamento e Orçamento, MPO, fiel à máxima homérica (“a culpa é minha e eu a ponho em que eu quiser”), divulgou estudo em que busca eximir a responsabilidade do governo pela piora das expectativas de inflação, um dos fatores que têm impedido queda mais rápida da taxa de juros.Segundo os autores do ensaio, a elevação das expectativas de inflação se originou do aumento dos “preços de insumos energéticos e fertilizantes; depois com pressões específicas sobre os preços de alguns alimentos e com a piora das perspectivas para o El Niño”. Assim, concluem, as políticas do atual governo não teriam desempenhado qualquer papel no processo.Ensaio de equipe do Ministério do Planejamento e Orçamento isenta as políticas do governo de qualquer papel na deterioração das expectativas de inflação Foto: Rafa Neddermeyer/Agência BrasilPUBLICIDADEO argumento não se sustenta. Apesar da pretendida sofisticação das estimativas, o que o estudo demonstra, na verdade, é de uma obviedade atroz: os choques acima listados tiveram impactos nos índices de preços em 2026; logo a expectativa de inflação para o ano corrente piorou.Todavia, para o BC o nó da questão não é o comportamento da inflação em 2026. O chamado “horizonte relevante” do Copom, isto é, o período de 18 meses à frente da decisão de política monetária, há muito deixou de ser este ano. Na reunião passada, por exemplo, o Comitê decidiu sobre a Selic com base na projeção de inflação para 2027 (talvez os 12 meses até março de 2028). As expectativas que interessam ao BC, portanto, são as relativas a 2027 e, principalmente, 2028, como aliás destacado na comunicação do próprio Copom, fato que imaginaria ser do conhecimento do MPO.PublicidadeIsto dito, atribuir a piora das expectativas de inflação para 2028 a eventos que ocorreram no segundo trimestre, ou mesmo na metade final, deste ano, equivale, em linguagem técnica, a se fazer de bobo. Por mais que afetem o desempenho do IPCA em 2026, é necessário uma dose enorme de boa vontade para acreditar que seus efeitos se estenderão mais de dois anos à frente.Como tenho argumentado, parte do problema se origina do próprio BC: ao calibrar a política monetária para fazer com que a inflação convirja para a meta muito além do horizonte relevante, o BC permite o contágio da inflação deste ano para os demais.Por outro lado, as políticas do atual governo claramente atuam no sentido contrário ao pretendido pelo BC, buscando estimular a demanda, enquanto o Copom tenta moderá-la. O resultado é desfazer o trabalho do BC, dificultando o processo de redução da inflação, afetando, portanto, as expectativas.Para o MPO, porém, quem erra não é o governo; é a realidade.