Consultor técnico defende que falhas na previsão de riscos operacionais pesam mais no orçamento do que reajustes contratuais. 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Márcio Velho da Silva — Foto: Divulgação Contratos públicos de saneamento e gestão de resíduos costumam ser avaliados, no momento da licitação, principalmente pelo valor global proposto. O que raramente entra nessa conta inicial é o custo de riscos operacionais mal dimensionados, que só aparecem meses depois, na forma de aditivos contratuais, multas por descumprimento de metas ou obras corretivas emergenciais. Márcio Velho da Silva, gestor e consultor técnico, trata essa lacuna como um dos pontos mais recorrentes de fragilidade em contratos do setor de infraestrutura ambiental. Diferente de um contrato de fornecimento pontual, operações de saneamento e resíduos se estendem por anos, período em que variáveis como envelhecimento de equipamentos, mudanças na legislação ambiental e oscilações na demanda por serviços podem alterar significativamente o custo real da operação em relação ao que foi originalmente orçado. O risco que não aparece na planilha inicial Uma proposta de contrato público costuma apresentar valores fixos por metro de rede instalada, tonelada de resíduo coletada ou volume de água tratada, mas esses números raramente incorporam cenários de falha, como quebra de equipamentos críticos, atraso na obtenção de licenças ambientais ou necessidade de expansão emergencial de capacidade diante de crescimento populacional acima do previsto. Márcio Velho da Silva destaca que esse tipo de omissão transfere o risco para o momento mais caro possível de resolvê-lo: durante a execução do contrato, sob pressão de prazo e sem margem de negociação favorável. Esse padrão se repete tanto em contratos assumidos por prefeituras quanto em concessões operadas por empresas privadas, já que a lógica de precificação inicial costuma priorizar competitividade na disputa pelo contrato, deixando a análise de risco para uma etapa posterior, quando já não há como renegociar condições básicas da proposta vencedora. Indicadores de desempenho como ferramenta de previsão Uma forma de reduzir essa lacuna é incorporar, já na fase de planejamento, indicadores de desempenho capazes de sinalizar riscos antes que eles se transformem em falhas operacionais custosas. Histórico de manutenção de equipamentos semelhantes, taxa de crescimento populacional da região atendida e frequência de eventos climáticos extremos são exemplos de dados que ajudam a estimar, com mais precisão, o intervalo de custo real de uma operação ao longo de todo o período contratual. Segundo o consultor técnico, contratos que incorporam esse tipo de análise preditiva tendem a prever cláusulas de reajuste mais realistas e mecanismos de contingência mais bem definidos, reduzindo a necessidade de renegociações emergenciais que costumam gerar desgaste entre poder público e operador do serviço, além de elevar o custo final da operação para ambas as partes. O custo de gerir riscos separadamente por área Outro ponto observado por Márcio Velho da Silva é a tendência de tratar riscos de frota, riscos de segurança do trabalho e riscos ambientais como categorias isoladas dentro de uma mesma operação, quando, na prática, eles se conectam diretamente. Uma falha de manutenção em veículos de coleta, por exemplo, pode gerar atraso operacional que impacta metas de resíduos recolhidos, além de aumentar a exposição de equipes a situações de risco durante deslocamentos e reparos emergenciais. Gerir esses riscos de forma integrada, em vez de compartimentada por departamento, permite identificar com mais clareza onde um problema pontual pode se propagar para outras frentes da operação, reduzindo o custo agregado de falhas que, isoladamente, pareceriam pequenas, mas que em conjunto comprometem a viabilidade financeira do contrato ao longo dos anos. O que muda quando o risco é precificado corretamente? Incorporar análise de risco desde a fase de proposta altera a forma como poder público e operadores avaliam a viabilidade de um contrato de saneamento ou resíduos sólidos. Em vez de comparar apenas o valor global apresentado por diferentes concorrentes, a análise passa a considerar a robustez de cada proposta diante de cenários adversos, critério que tende a favorecer operadores com histórico consistente de gestão operacional, mesmo quando sua proposta inicial não é a mais baixa do processo licitatório. Márcio Velho da Silva explica que essa mudança de critério representa um amadurecimento necessário do setor, especialmente em um momento no qual o país avança em metas de universalização do saneamento, que exigem contratos de longo prazo, capazes de sustentar qualidade de serviço mesmo diante de cenários que fogem do previsto no momento da assinatura.
Márcio Velho da Silva alerta que gestão de risco mal calculada eleva custo de contratos públicos de saneamento e resíduos
Consultor técnico defende que falhas na previsão de riscos operacionais pesam mais no orçamento do que reajustes contratuais.









