Ignorada nos modelos de valuation, a operação de resíduos dentro das concessões pode ser o fator que separa contratos lucrativos dos que acumulam passivos. Márcio Velho da Silva — Foto: Divulgação O debate sobre concessões de saneamento no Brasil costuma girar em torno de obras, tarifas e metas de universalização. O que raramente entra nessa conversa com a profundidade que merece é a gestão dos resíduos sólidos gerados ao longo de toda a cadeia operacional, desde os resíduos de obra até o lodo produzido nas estações de tratamento de esgoto. Essa dimensão operacional tem impacto direto sobre os custos das concessões, sobre o cumprimento de exigências ambientais e sobre a margem que os contratos efetivamente entregam aos seus operadores. Márcio Velho da Silva, gestor e consultor técnico especializado em gestão de resíduos sólidos urbanos, observa que concessionárias que tratam a gestão de resíduos como atividade secundária cometem um erro estratégico cujas consequências aparecem nos resultados operacionais muito antes do que os modelos financeiros costumam antecipar. O resíduo que a concessão gera e ninguém precifica Uma concessão de saneamento em operação produz resíduos em múltiplas frentes. O lodo gerado nas estações de tratamento de esgoto precisa ser desidratado, transportado e destinado adequadamente, seja para aterros sanitários licenciados, seja para uso agrícola controlado, seja para coprocessamento industrial. Os resíduos de obra, gerados durante a implantação e manutenção de redes e estruturas, têm exigências específicas de segregação, transporte e destinação, conforme a legislação ambiental vigente. Cada uma dessas frentes tem custo, risco e exigência regulatória próprios. Márcio Velho da Silva aponta que a destinação inadequada de resíduos em operações de saneamento expõe as concessionárias a autuações ambientais, multas e, em casos mais graves, interrupção de licenças operacionais. Esses riscos raramente aparecem nos prospectos de concessão com o destaque que merecem, mas se materializam com frequência suficiente para comprometer resultados e reputação de operadores que não estruturaram adequadamente sua gestão de resíduos desde o início das operações. Lodo de esgoto: o passivo que virou oportunidade O lodo produzido nas estações de tratamento de esgoto é um dos resíduos mais volumosos e complexos da operação de saneamento. Durante anos, foi tratado exclusivamente como passivo, um problema a ser resolvido com o menor custo possível. Essa percepção está mudando. O lodo estabilizado e higienizado tem valor agronômico comprovado como condicionador de solo, e sua aplicação controlada em áreas agrícolas pode gerar receita ou, ao menos, eliminar o custo de destinação para aterros. Para Márcio Velho da Silva, concessionárias que desenvolvem programas estruturados de aproveitamento do lodo como biossólido transformam um centro de custo em uma fonte de valor que melhora a equação financeira da operação. Esse movimento exige investimento em tratamento adequado, certificação e relacionamento com o setor agrícola, mas tem retorno mensurável e alinha a operação às exigências crescentes de sustentabilidade que reguladores e investidores institucionais passaram a monitorar com mais atenção. Gestão de resíduos de obra: o custo que escala com o volume de contratos À medida que uma concessionária expande sua carteira de obras, o volume de resíduos de construção gerado escala proporcionalmente. Resíduos de escavação, concreto, tubulações substituídas e materiais de demolição precisam ser geridos dentro de protocolos que atendam à Resolução CONAMA 307 e às exigências específicas dos licenciamentos ambientais de cada projeto. Sem um sistema de gestão centralizado, esse custo cresce de forma desordenada e dificulta o controle de margem por contrato. Márcio Velho da Silva ressalta que empresas que implantam sistemas de gestão de resíduos de obra integrados à gestão dos contratos conseguem reduzir custos de destinação, minimizar riscos de autuação e melhorar os indicadores ambientais que compõem os relatórios de sustentabilidade exigidos por financiadores e reguladores. A gestão de resíduos, nesse contexto, deixa de ser uma obrigação legal e se torna um elemento da estratégia operacional. O indicador que os investidores deveriam monitorar O mercado financeiro ainda não incorporou a eficiência na gestão de resíduos como variável relevante na análise de concessões de saneamento. Isso vai mudar à medida que as exigências regulatórias ambientais se intensificarem e que os custos de destinação inadequada se tornarem mais visíveis nos resultados das empresas do setor. Como destaca Márcio Velho da Silva, operadores que constroem desde o início uma gestão de resíduos estruturada, com processos claros, fornecedores qualificados e indicadores monitorados, estão reduzindo um risco que seus concorrentes ainda não quantificaram. Em infraestrutura, antecipar riscos operacionais é sempre mais barato do que gerenciar suas consequências. E a gestão de resíduos, no setor de saneamento, é um risco que o mercado ainda está aprendendo a precificar.
Gestor e consultor técnico em resíduos sólidos, Márcio Velho da Silva mostra por que a eficiência na gestão de resíduos define o sucesso financeiro das concessões de saneamento
Ignorada nos modelos de valuation, a operação de resíduos dentro das concessões pode ser o fator que separa contratos lucrativos dos que acumulam passivos.










