Com R$ 700 bilhões em jogo e prazo de universalização se aproximando, a capacidade técnica de executar obras virou o ativo mais escasso do setor. Márcio André Savi — Foto: Divulgação O Brasil nunca teve tanto dinheiro disponível para saneamento básico. Desde a aprovação do novo marco legal, em 2020, concessões foram licitadas, grupos privados entraram no mercado e o volume de contratos firmados atingiu patamares históricos. O prazo para universalizar o acesso à água tratada e ao esgotamento sanitário é 2033, e os investimentos necessários para chegar lá ultrapassam R$ 700 bilhões, segundo estimativas do setor. O problema, porém, não está nos recursos. Está na capacidade de transformá-los em obras que funcionem. Para o engenheiro especializado em infraestrutura de saneamento, Márcio André Savi, o mercado cometeu um equívoco ao tratar o novo marco principalmente como uma questão financeira. A variável que vai determinar se o Brasil cumpre ou descumpre as metas de 2033 é técnica, não monetária. O novo modelo e a corrida das concessionárias A mudança regulatória encerrou a possibilidade de contratos de programa sem licitação e obrigou a prestação dos serviços a passar por processos competitivos. O efeito foi imediato. Grandes grupos privados aceleraram a expansão, assumindo concessões que antes estavam nas mãos de autarquias municipais com estrutura técnica reduzida e orçamentos cronicamente insuficientes. Em paralelo, o ritmo de contratação de obras cresceu de forma expressiva. Projetos de adutoras, estações de tratamento, redes coletoras de esgoto e sistemas de disposição de resíduos saíram do papel em municípios que esperavam por infraestrutura básica há décadas. O desafio que emerge, portanto, não é mais financeiro. É operacional: como garantir que tantos projetos simultâneos sejam executados com qualidade e dentro dos prazos contratuais. Perdas no sistema: onde o dinheiro some antes de chegar ao consumidor Um dos indicadores que melhor revela a ineficiência estrutural do setor hídrico brasileiro é o índice de perdas nas redes de distribuição. Cerca de 40% da água tratada no país não chega ao consumidor final, segundo o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento. Esse percentual representa prejuízo econômico direto para concessionárias, impacto nas tarifas e desperdício ambiental em escala industrial. Márcio André Savi observa que, em muitos casos, a redução de perdas gera retorno mais rápido do que a construção de novas captações. Identificar vazamentos com precisão, modernizar redes antigas e implantar sistemas de monitoramento em tempo real são intervenções que ampliam a capacidade operacional do sistema sem demandar o volume de investimento de uma obra de grande porte. O retorno dessas ações, porém, só se realiza quando há comprometimento técnico na execução e continuidade na gestão, dois fatores que ainda faltam em parcela significativa dos sistemas municipais brasileiros. Esgotamento sanitário: o lado da conta que ninguém quer pagar Se o abastecimento de água avançou nas últimas décadas, o esgotamento sanitário concentra o maior déficit do saneamento brasileiro. Menos de 55% dos domicílios do país estão conectados a redes coletoras com tratamento adequado. Nas regiões Norte e Nordeste, esse índice cai de forma ainda mais acentuada, com implicações diretas sobre indicadores de saúde pública e produtividade econômica. Projetos de esgotamento sanitário são tecnicamente mais complexos do que redes de água. Exigem topografia favorável, estações elevatórias bem dimensionadas, redes coletoras de grande extensão e sistemas de tratamento compatíveis com a realidade de cada localidade. Savi ressalta que a padronização de soluções sem considerar as especificidades regionais é um dos erros recorrentes que encarecem obras, reduzem sua eficácia e comprometem os índices de cobertura que as concessionárias precisam apresentar aos reguladores. O ativo que o mercado subestimou À medida que os projetos crescem em escala e complexidade, a qualidade da gestão técnica das obras deixa de ser um diferencial e passa a ser um requisito de sobrevivência contratual. Sistemas integrados de abastecimento, com captação, adução, tratamento e distribuição em áreas metropolitanas, exigem coordenação multidisciplinar, controle rigoroso de cronograma e domínio das normas técnicas e ambientais em cada etapa. Como destaca Márcio André Savi, a qualificação técnica das equipes impacta diretamente a durabilidade das obras, a eficiência operacional dos sistemas entregues e o cumprimento das metas regulatórias que estruturam os contratos de concessão. O capital está disponível. O marco legal está posto. O que vai definir quem prospera nesse mercado é a capacidade de entregar o que foi prometido. E isso, no setor de infraestrutura, tem nome: engenharia.