Gestor e consultor técnico em resíduos sólidos urbanos, ele mostra o que separa cidades que destinam o lixo corretamente das que ainda convivem com lixões a céu aberto. 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Márcio Velho da Silva — Foto: Divulgação Todo dia, em algum momento entre a madrugada e o início da manhã, um caminhão passa pela sua rua e leva embora o que você descartou. Essa cena é tão rotineira que raramente provoca qualquer questionamento sobre o que acontece depois. Para onde vai o lixo? O que é feito com ele? Existe alguma diferença entre jogar fora uma garrafa plástica e uma sobra de comida? A resposta para essas perguntas é mais complexa, mais cara e mais relevante para a qualidade de vida urbana do que a maioria das pessoas imagina. Márcio Velho da Silva, gestor e consultor técnico especializado em gestão de resíduos sólidos urbanos, dedica sua atuação profissional a esse universo invisível que começa exatamente onde a rotina do cidadão termina. Na sua visão, entender o que acontece com o lixo depois que o caminhão passa é o primeiro passo para compreender por que o Brasil ainda tem tanto a avançar nessa área. Da coleta à destinação: o caminho que poucos conhecem Depois que o caminhão coletor passa, o lixo doméstico segue para uma central de triagem ou diretamente para um aterro sanitário, dependendo do município e do sistema de coleta em operação. Nas cidades com coleta seletiva estruturada, os recicláveis são separados, prensados e encaminhados para empresas recicladoras. O lixo orgânico, que representa cerca de metade do peso total dos resíduos domésticos, pode ser destinado a usinas de compostagem ou biodigestores, onde se transforma em adubo ou biogás. Márcio Velho da Silva observa que a maior parte dos municípios brasileiros ainda não tem infraestrutura suficiente para fazer esse caminho completo. O que sobra, depois de separar o que pode ser reciclado ou aproveitado, precisa ser destinado a aterros sanitários, que são obras de engenharia complexas e caras. Municípios sem aterro adequado recorrem a lixões a céu aberto, onde o lixo é simplesmente despejado sem nenhum controle técnico, contaminando solo, água e ar ao redor. Lixão ou aterro sanitário: uma diferença que define qualidade de vida A diferença entre um lixão e um aterro sanitário não é apenas técnica. É a diferença entre contaminar e controlar, entre ignorar o problema e gerenciá-lo. Um aterro sanitário é projetado com impermeabilização de base para evitar que o chorume, o líquido escuro e tóxico que escorre do lixo, contamine o lençol freático. Tem sistema de coleta e tratamento desse chorume, drenagem de biogás e cobertura diária dos resíduos com terra. Um lixão não tem nada disso. Para Márcio Velho da Silva, a presença de um lixão nas proximidades de uma comunidade é um indicador direto de risco à saúde pública. A contaminação da água subterrânea, a proliferação de vetores de doenças como ratos e mosquitos e a emissão de gases tóxicos são consequências que afetam a população ao redor de forma silenciosa e cumulativa. O fechamento dos lixões era uma obrigação legal estabelecida pela Política Nacional de Resíduos Sólidos para 2014. Em 2025, centenas de municípios brasileiros ainda não cumpriram essa determinação. Coleta seletiva: por que funciona em alguns lugares e em outros não? A coleta seletiva é, para a maioria dos brasileiros, a forma mais direta de participar do sistema de gestão de resíduos. Separar o lixo em orgânico e reciclável parece simples, mas a eficiência do sistema depende de uma cadeia que vai muito além do gesto individual de colocar a garrafa no lugar certo. Precisa de caminhões de coleta adequados, centrais de triagem estruturadas, cooperativas de catadores organizadas e mercado comprador para os materiais separados. Márcio Velho da Silva ressalta que municípios com coleta seletiva que realmente funciona investiram não apenas em infraestrutura, mas em educação e comunicação com a população. A separação correta em casa é o início do processo, mas sem os elos seguintes da cadeia funcionando, o material bem separado pelo cidadão pode terminar misturado com o lixo comum no aterro. Quando isso acontece, a frustração corrói a adesão da população e compromete a sustentabilidade do programa. O lixo como espelho da cidade A forma como uma cidade gerencia seus resíduos sólidos diz muito sobre sua capacidade de se organizar, planejar e cuidar de seus moradores. Municípios com sistemas de gestão de resíduos eficientes têm ruas mais limpas, menor risco de enchentes por entupimento de bueiros, menos doenças relacionadas ao acúmulo de lixo e maior qualidade de vida urbana geral. Não é coincidência que as cidades com melhores índices de saneamento sejam também as com melhores indicadores de saúde e desenvolvimento humano. Como pontua Márcio Velho da Silva, o lixo que cada cidadão descarta é o começo de uma cadeia de gestão que, quando funciona bem, é completamente invisível. E quando não funciona, é impossível ignorar. Entender essa cadeia e cobrar de gestores públicos e concessionárias o cumprimento das obrigações legais e técnicas que ela exige é uma forma concreta de participar da construção de cidades mais saudáveis e mais justas para quem vive nelas.
O que acontece com o lixo da sua cidade depois que o caminhão passa: Márcio Velho da Silva explica
Gestor e consultor técnico em resíduos sólidos urbanos, ele mostra o que separa cidades que destinam o lixo corretamente das que ainda convivem com lixões a céu aberto.








