Passivo ambiental não aparece no orçamento como uma linha visível, mas pesa sobre a vida de quem mora perto de áreas de descarte irregular, especialmente em cidades pequenas. 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Marcello José Abbud — Foto: Divulgação Quando uma cidade convive por anos com uma área de descarte irregular, o custo dessa escolha não aparece de uma vez só. Ele se acumula devagar, em forma de contaminação de solo, desvalorização de terrenos próximos e problemas de saúde que raramente são associados, à primeira vista, à sua origem real. Marcello José Abbud, diretor de operações da Ecodust Ambiental, chama esse acúmulo silencioso de passivo ambiental, e defende que ele merece mais atenção do que costuma receber, principalmente em municípios pequenos. O que é um passivo ambiental, e por que ele é diferente de um problema pontual? Passivo ambiental é o conjunto de danos acumulados ao longo do tempo por uma prática de gestão inadequada, mesmo quando essa prática já foi interrompida. Uma área que recebeu descarte irregular de resíduos por anos continua contaminada muito depois de deixar de operar como local de despejo, e a remediação desse tipo de dano costuma ser mais cara e mais lenta do que teria sido evitar o problema desde o início. "O erro mais comum é tratar isso como problema resolvido assim que a prefeitura fecha uma área irregular. Fechar não é o mesmo que remediar. O passivo continua lá, embaixo do solo e na água, até que alguém pague pra tratar isso de verdade", explica Marcello José Abbud. Para ele, esse é um dos motivos pelos quais o custo real da má gestão de resíduos costuma ser subestimado nas contas públicas municipais. Por que municípios pequenos sentem esse problema de forma mais intensa? Municípios de pequeno e médio porte costumam ter menos recursos técnicos e orçamentários para lidar com passivos ambientais já existentes, ao mesmo tempo em que enfrentam pressão para investir em soluções novas de tratamento de resíduos. Essa combinação cria um ciclo difícil de romper: o dinheiro que poderia ir para uma solução moderna de destinação final frequentemente precisa ser direcionado, antes, para remediar danos deixados por décadas de descarte inadequado. Marcello José Abbud descreve esse cenário como um dos maiores obstáculos silenciosos da gestão ambiental brasileira fora das grandes capitais. "Ninguém decide investir em passivo ambiental porque quer. É uma obrigação que chega atrasada, competindo por orçamento com prioridades que a população enxerga de forma mais imediata, como saúde ou educação. Isso faz esse tipo de investimento ficar sempre em segundo plano", pondera. O que caracteriza um passivo ambiental relacionado à gestão de resíduos sólidos? É o conjunto de danos ambientais acumulados por práticas inadequadas de descarte ao longo do tempo, como contaminação de solo e água em áreas que receberam resíduos sem tratamento adequado. Mesmo após o encerramento da atividade, o dano permanece até que uma remediação técnica seja realizada. O impacto social que costuma ficar fora da conversa Além do custo ambiental e financeiro, passivos ambientais afetam diretamente a vida de quem mora nas proximidades dessas áreas, muitas vezes populações em situação de maior vulnerabilidade social, que têm menos capacidade de pressão política para exigir solução rápida. Esse recorte social do problema, segundo Marcello José Abbud, tende a receber menos atenção do que o recorte técnico ou ambiental, mesmo sendo o que mais afeta pessoas concretas no dia a dia. "A gente fala muito em toneladas de resíduos e pouco em quem vive ao lado dessas toneladas. Essa distância entre o dado técnico e a vida real de quem sofre o efeito é um dos motivos pelos quais o problema demora tanto a virar prioridade política", afirma. Ele defende que comunicar esse tipo de tema exige aproximar o dado técnico da experiência concreta das pessoas afetadas, não apenas apresentar estatística de forma isolada. Existe caminho para reverter passivos já existentes Reverter um passivo ambiental exige diagnóstico técnico detalhado da área afetada, definição de responsabilidade pela remediação e, na maioria dos casos, investimento que dificilmente cabe apenas no orçamento de um único município pequeno. Linhas de financiamento específicas para remediação ambiental existem, mas normalmente exigem que o município já tenha o diagnóstico técnico pronto para acessar esse tipo de recurso, o que volta ao mesmo obstáculo de capacidade técnica local discutido em outras frentes do setor. Para Marcello José Abbud, o caminho mais realista passa por tratar remediação de passivo ambiental como parte do mesmo planejamento que já discute novas soluções de tratamento de resíduos, em vez de separar os dois temas como se fossem problemas independentes. "Não faz sentido planejar o futuro da gestão de resíduos de uma cidade sem primeiro entender o que ficou pendente do passado. Um problema alimenta o outro se forem tratados separadamente", conclui.