A preocupação do governo brasileiro com uma possível interferência externa nas redes sociais durante as eleições de 2026, amplamente noticiada pela mídia, deveria produzir um efeito maior do que a disputa política do momento. Ela deveria nos obrigar a discutir um problema estrutural que ainda tratamos como se fosse um episódio circunstancial.
Não se trata apenas das recentes manifestações de Donald Trump e Javier Milei em favor de Flávio Bolsonaro, nem da declaração do próprio presidente dos EUA afirmando interesse no processo eleitoral brasileiro. Declarações políticas sempre existiram e, isoladamente, não constituem prova de qualquer operação coordenada. O problema é outro.
Pela primeira vez na história, interesses econômicos, geopolíticos e ideológicos dispõem de tecnologias capazes de disputar a formação da opinião pública em escala planetária, com um grau de sofisticação que desafia a própria capacidade de reação das democracias. A política entrou definitivamente na era da Inteligência Artificial.
Durante muito tempo acreditamos que a maior ameaça ao debate público estava nas fake news e disparos automatizados. Essas práticas continuam relevantes, mas se tornaram apenas uma parte do problema. A evolução da IA inaugurou um cenário muito mais complexo.















