Levantamento revela tolerância a sátiras e especialistas alertam para risco de propagação de desinformação 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Bonecos como ministros do STF e prefeito Ken: sátiras e uso de IA por políticos — Foto: Imagens de reprodução/redes sociais RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 13/06/2026 - 18:08 Uso de IA em sátiras eleitorais no Brasil gera preocupação com fake news O uso de inteligência artificial para criar sátiras em campanhas eleitorais no Brasil tem gerado preocupações sobre a disseminação de desinformação. Estudos indicam que a Justiça Eleitoral é mais tolerante com conteúdos humorísticos, mesmo quando manipulados. Especialistas destacam o risco de deepfakes influenciaram a opinião pública. O TSE busca regulamentar o uso de IA, exigindo transparência nas propagandas. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Apontado como um dos principais desafios das campanhas eleitorais deste ano, o uso de inteligência artificial por candidatos e partidos mobiliza o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Paralelamente, especialistas alertam para brechas que permitem a circulação de conteúdos manipulados. Estudos indicam que a fiscalização tende a ser mais tolerante quando há uso de humor. Pesquisa da advogada Jhennifer Macedo, do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), analisou 591 decisões sobre deepfakes nas eleições de 2024. O levantamento mostra que a Justiça Eleitoral diferencia conteúdos fraudulentos daqueles considerados “expressivos” ou satíricos, entendidos como crítica política com humor ou montagem grosseira. Em 62% dos casos, as publicações não foram barradas por se enquadrarem nessas categorias. Um exemplo ocorreu em Gravataí (MG), envolvendo o vice-prefeito e o secretário de Saúde, candidatos em 2024. Eles acionaram a Justiça após a circulação de uma imagem que os retratava como palhaços. O Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais (TRE-MG) entendeu que não houve manipulação sofisticada, mas uma “montagem rústica” com caráter de crítica política. A decisão destacou que deepfakes são conteúdos falsos altamente realistas, que simulam situações inexistentes. — O humor tem sido usado para suavizar e ampliar a circulação de conteúdos manipulados por IA. Quando uma deepfake aparece como meme ou sátira, pode escapar da identificação imediata como desinformação, mesmo influenciando a opinião pública — afirma Jhennifer Macedo. Outro caso envolveu o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), e a deputada federal Tabata Amaral (PSB). Após ser chamada de “Barbie da política”, Tabata respondeu com um vídeo comparando Nunes ao personagem Ken, usando uma colagem. O TRE-SP considerou que não havia deepfake, mas apenas montagem, e não determinou a retirada do conteúdo. Na decisão, o tribunal destacou que a deepfake é uma falsificação profunda “que torna difícil distinguir a realidade da manipulação digital”. Especialistas avaliam que esse entendimento pode abrir espaço para conteúdos sofisticados que, embora manipulados, não simulem totalmente a realidade. Para a cientista da computação Nina da Hora, é necessário discutir os limites do humor para evitar que ele funcione como “escudo universal” para deepfakes. — Reproduzir voz e imagem de pessoas, mesmo em sátira, pode se enquadrar nas regras. O problema está na zona cinzenta: onde começa e termina o humor? Trata-se de uma avaliação subjetiva, no centro do debate jurídico — afirma Nina, que assessorou o TSE em 2022. Antes de assumir a presidência do TSE, o ministro Kassio Nunes Marques já demonstrava preocupação com o tema. Ele buscou diálogo com universidades e, ao tomar posse, afirmou que a maior ameaça às eleições é a “mentira tecnicamente otimizada”. Transparência Resolução da Corte aprovada em março determina que propagandas com uso de IA devem informar, de forma clara, que o conteúdo foi manipulado, além de indicar a tecnologia empregada — inclusive em materiais impressos. Na prática, porém, cada caso será analisado individualmente. As brechas apontadas por especialistas surgem em meio a questionamentos já presentes na pré-campanha. Um exemplo é a série criada pelo ex-governador de Minas, Romeu Zema, que utilizou fantoches gerados por IA para criticar ministros do STF. Um dos retratados, Gilmar Mendes, pediu investigação no inquérito das fake news, relatado por Alexandre de Moraes. A estética foi replicada pelo vereador de Belo Horizonte Pedro Rousseff (PT-MG), em animação contra políticos de direita, após cobranças do senador Flávio Bolsonaro ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro para a cinebiografia do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. A campanha de Zema afirmou que não judicializará o caso, considerando a troca parte do “jogo político”. A equipe de Flávio não comentou. A campanha do senador, no entanto, acionou o TSE contra outros vídeos produzidos por IA por aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Um deles retrata Flávio como um cachorro ao lado de um osso, enquanto Donald Trump e Lula aparecem à mesa. A ação alega ridicularização e ataque à honra por meio de conteúdo sintético desinformativo. Ainda não há decisão nesse caso. Para a advogada Camila Akemi Tsuzuki, coordenadora de pesquisa do InternetLab, humor, sátira e paródia são formas legítimas de participação política no Brasil, mas encontram limites quando se aproximam de calúnia ou injúria.