Em passagem pelo país para a Rio Innovation Week, David Fein, representante da iniciativa criada pelo príncipe William, destaca também o potencial do Brasil em inovação ambiental 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Mata Atlântica restaurada em projeto da re.green na Fazenda Ouro Verde, no sul da Bahia. Empresa brasileira de restauração ecológica venceu um dos prêmios Eartshot em 2025 — Foto: Divulgação / Earthshot Prize Enquanto eventos extremos ligados às mudanças climáticas se tornam cada vez mais frequentes em diferentes regiões do mundo, o vice-presidente do Earthshot Prize, David Fein, defende que o debate sobre o tema não pode se concentrar apenas nos impactos da crise, mas também nas iniciativas de sucesso capazes de adaptar comunidades, recuperar ecossistemas e reduzir danos ambientais. Em entrevista ao GLOBO durante sua passagem pela cidade para a Rio Innovation Week, Fein, apaixonado pelo Brasil e orgulhoso detentor de um CPF, afirmou que o país tem potencial para se tornar um dos principais polos de inovação climática do mundo, por reunir empreendedores e soluções ambientais de "classe mundial" capazes de inspirar outros países. Criado pelo príncipe William em 2020, o Earthshot Prize é uma premiação global que seleciona projetos em cinco áreas ambientais e concede 1 milhão de libras (em torno de R$ 6,89 milhões) a cada vencedor para ajudar a ampliar o impacto das iniciativas. Além do prêmio, a organização atua conectando, em nível global, finalistas a investidores, empresas e parceiros para acelerar a implementação das soluções capazes de mitigar os efeitos da crise climática. David Fein, vice-presidente da Earthshot Prize, com seu CPF — Foto: Ana Branco / O Globo Confira os principais trechos da entrevista: Hoje existe um crescente senso de urgência em relação às mudanças climáticas, mas o progresso em relação às adaptações ainda parece lento. O que impede que essas soluções sejam efetivamente implementadas na escala e na velocidade de que o mundo precisa hoje? A visão do Earthshot e do príncipe William é justamente a crença de que as soluções já existem e que, se receberem a oportunidade de acelerar e ganhar escala, poderão ter um impacto profundo no planeta. E estamos focados em promover isso. A primeira etapa do nosso trabalho é identificar e selecionar ideias que podem fazer mais diferença. Depois de identificá-las, o próximo passo é apoiá-las, e elas precisam de muito apoio. São soluções novas, disruptivas, desafiadoras, muitas vezes pouco convencionais. Por isso, enfrentam inúmeras barreiras para entrar no mercado ou serem adotadas, e nós procuramos ajudá-las a superar esses obstáculos. Elas precisam de investimento, de implementação, de apoio vindo de diferentes formas e de diferentes lugares. Por isso, criamos uma aliança global de parceiros capaz de ajudá-las a encontrar investimentos, oportunidades de implementação e outros caminhos para romper barreiras e ganhar escala. Comunidades em todo o mundo já estão vivenciando diversos impactos das mudanças climáticas, como enchentes, secas e ondas de calor, como as vistas recentemente na Europa, Ásia e América do Norte. O senhor acha que as mudanças climáticas recebem hoje a atenção que merecem? É difícil não receber atenção, porque está acontecendo diante dos nossos olhos, como você disse. Está acontecendo em todos os continentes. Então, acho que está recebendo atenção porque está nas notícias. Ainda assim, acredito que existe um excesso de pessimismo e que não há atenção suficiente voltada para as soluções, para as formas de adaptação, de mitigação e de recuperação do planeta. A natureza tem uma capacidade extraordinária de se recuperar, desde que haja essa oportunidade. E nós temos soluções baseadas na natureza que oferecem isso. Quando vemos essas soluções sendo aplicadas no campo e acompanhamos seus resultados, percebemos respostas muito rápidas dos ecossistemas. E que tipo de soluções o senhor poderia citar no Brasil, por exemplo? Esta semana anunciamos uma nova parceria com a Suzano [empresa brasileira e maior fabricante de celulose de eucalipto do mundo] que vai implementar a solução da re.green e permitir o reflorestamento de áreas degradadas no Brasil. A re.green é uma empresa brasileira com fins lucrativos, porque também acreditamos que é muito importante que essas soluções sejam rentáveis e economicamente viáveis, que venceu um dos prêmios Earthshot no ano passado, a primeira brasileira. A Suzano investiu na re.green, e a empresa agora atuará em suas propriedades para reflorestar uma grande área no país. Sobre essa troca internacional, hoje vivemos em um mundo marcado por tensões geopolíticas e pressões econômicas... O senhor acha que está se tornando mais difícil manter colaborações no topo da agenda global nesse cenário? Acreditamos profundamente na cooperação internacional. Muitas das nossas soluções são transfronteiriças e globais, e precisam ser implementadas dessa forma. Primeiro, porque o clima e a natureza não respeitam fronteiras nem limites políticos, eles atravessam territórios e países. Segundo, porque pode existir (e de fato existe), por exemplo, uma excelente solução na Tasmânia, na Austrália, que gostaríamos de ver empresas ao redor do mundo, como as do Brasil, adotando. Por isso incentivamos o diálogo entre países. Temos governos que já venceram ou foram finalistas do Earthshot Prize, como a Costa Rica, a cidade de Milão e a cidade de Bogotá. Quando recebem o prêmio de 1 milhão de libras, pedimos que utilizem esse recurso para ampliar seus projetos para além de suas cidades ou países, e felizmente sempre vemos isso acontecer na prática. O Sul Global é uma das regiões mais afetadas pela crise climática, mas também tem produzido muitas soluções inovadoras, como o senhor destacou. Como o senhor vê a contribuição de países como o Brasil nesse contexto? Boas soluções estão sendo criadas em todo o mundo, tanto no Norte quanto no Sul Global, e vemos isso no Earthshot. Mas, por exemplo, o que percebemos muito claramente no Brasil, para onde já vim sete vezes nos últimos 13 meses, é que existe uma biodiversidade extraordinária, uma natureza incrível e uma localização geográfica extremamente importante. E há empreendedores e inovadores de classe mundial, tão bons quanto qualquer outro no planeta, que merecem reconhecimento. O país é extremamente rico em seu capital humano. E, pessoalmente, o que mais me impressionou foi o comprometimento das pessoas. Elas estão realmente engajadas em melhorar a situação ambiental de uma maneira que serve de modelo para o restante do mundo. Além do prêmio em si, como o Earthshot pretende ampliar sua atuação no Brasil nos próximos anos? Temos vários projetos em andamento. Nesta semana, lançamos nosso primeiro hub de inovação em parceria com o Cubo Itaú, durante a São Paulo Climate Week. A ideia é conectar vencedores e finalistas do Earthshot a empresas brasileiras, investidores, startups, universidades e empreendedores. O problema não é a falta de ideias, mas conectar as pessoas certas. Também criamos, em parceria com o Insper, o primeiro programa de liderança climática do Earthshot. É um curso de nível de pós-graduação para formar novos líderes climáticos, combinando a excelência acadêmica da instituição com a nossa rede global. E fazemos muito trabalho de comunicação. Nesta semana, por exemplo, anunciamos um novo embaixador do Earthshot, o cantor brasileiro Seu Jorge. Ele participou do evento no ano passado, ficou inspirado pelo que viu e decidiu usar sua voz para apoiar os inovadores.
Crise climática exige menos pessimismo e mais apoio a soluções existentes, diz vice-presidente do Earthshot Prize
Em passagem pelo país para a Rio Innovation Week, David Fein, representante da iniciativa criada pelo príncipe William, destaca também o potencial do Brasil em inovação ambiental









