Em painel na Rio Innovation Week, especialistas apontam potencial do Brasil com tecnologia, mas alertam para necessidade de marco regulatório claro 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Para Isabela Morbach Machado e Silva, cofundadora e diretora da CCS Brasil, país tem vantagem competitiva por reunir produção de biocombustíveis e possibilidade de armazenamento geológico — Foto: Vanessa Oliveira/Valor A captura e armazenamento de carbono (CCS, na sigla em inglês) começa a deixar o campo das pesquisas e entrar na agenda de projetos pilotos no país, mas a expansão da tecnologia ainda depende de um marco regulatório claro e da criação de sinais econômicos que deem previsibilidade aos investimentos. Essa foi a conclusão do painel “CCS: construindo o mercado brasileiro de captura e armazenamento de carbono”, promovido pela ANP, que reuniu representantes da agência, da indústria e associação do setor. A tecnologia de CCS consiste em capturar o dióxido de carbono (CO₂) emitido por atividades industriais ou energéticas e armazená-lo em formações geológicas profundas, evitando que o gás chegue à atmosfera. Embora ainda seja uma frente em desenvolvimento no país, especialistas destacam que o CCS já é uma tecnologia consolidada internacionalmente, com projetos comerciais em operação em diferentes regiões do mundo. Para Isabela Morbach Machado e Silva, cofundadora e diretora da CCS Brasil, organização que busca promover a cooperação entre academia, governo, financiadores e indústria na área, o desafio agora é transformar conhecimento acumulado em projetos financiáveis. “A implementação do CCS está literalmente e diretamente ligada à ideia de que nós precisaremos reduzir as nossas emissões em todos os setores. E que isso tem um custo que precisa ser precificado”, afirmou. Segundo ela, a regulamentação do mercado de carbono será um dos elementos capazes de criar demanda para a tecnologia ao estabelecer quanto custará emitir CO₂ para as empresas. A executiva destacou que o CCS não deve ser visto como solução única para a descarbonização, mas como uma ferramenta complementar para setores em que parte das emissões é difícil de eliminar, como cimento e siderurgia. “Existe em muitas indústrias um residual que não é um pouquinho, às vezes 40%, 50% de emissões, que não dá para fazer outra coisa”, disse Silva. No Brasil, o marco legal do CCS foi incluído na chamada Lei do Combustível do Futuro, mas a regulamentação infralegal ainda aguarda publicação. Segundo Amanda Gondim, superintendente da ANP e mediadora do painel, o decreto regulamentador já passou por consulta pública e está em avaliação. Enquanto isso, a agência acompanha os projetos individualmente, em um modelo experimental, para acumular conhecimento técnico e preparar a futura regulação. “Estamos aprendendo muito juntos. Como é que vamos regular algo que não temos conhecimento profundo? Não tem como”, afirmou Gondim. Ela ressaltou que, apesar da ausência de uma regulamentação definitiva, projetos-pilotos de CCS já podem ser desenvolvidos no país com acompanhamento da ANP. Para Jonas Gomes, gerente de projetos de P&D da TotalEnergies, a segurança regulatória será decisiva para atrair investimentos. Ele citou como referência o projeto Northern Lights, na Noruega, primeiro projeto comercial de transporte e armazenamento de CO2 em larga escala no mundo, iniciativa conjunta da TotalEnergies, Equinor e Shell, que entrou em operação em 2025 e começou a armazenar CO₂ capturado de indústrias europeias. A primeira fase tem capacidade para armazenar 1,5 milhão de toneladas de CO₂ por ano, com expansão prevista para 5 milhões de toneladas anuais. Segundo Gomes, a experiência internacional mostra que projetos desse porte exigem cooperação entre empresas, governo e sociedade. “Na primeira fase do Northern Lights, 80% do investimento veio de incentivo do governo”, afirmou. Para ele, enquanto o mercado de carbono ainda amadurece, mecanismos de apoio serão importantes para reduzir riscos e acelerar investimentos. Para Silva, da CCS, o país tem uma vantagem competitiva nessa área por reunir produção de biocombustíveis e possibilidade de armazenamento geológico. O Brasil, segundo ela, pode ser um divisor de águas no mercado de BECCS (bioenergia com captura e armazenamento de carbono). “A combinação entre produzir biocombustíveis e ter a capacidade de capturar e armazenar CO2 torna esse processo de emissões negativas, ou seja, remove mais carbono da atmosfera do que emite. Nem todo país reúne essas duas condições. Às vezes um país tem grande expertise em armazenamento de CO2, como a Noruega, mas não tem uma fonte de captura de CO2 de origem biogênica como o Brasil ou os Estados Unidos têm", disse Silva. Apesar do avanço tecnológico, os especialistas alertam que a adaptação ao contexto brasileiro exige cuidado. Para Ronan Magalhães Ávila, superintendente adjunto de Avaliação Geológica e Econômica da ANP, o CCS é uma tecnologia consolidada, mas sua aplicação em bacias sedimentares brasileiras sem histórico de exploração demanda dados detalhados. “O CCS é uma tecnologia segura, pode ser feita, desde que feita com muita seriedade”, afirmou. Segundo ele, o país tem uma vantagem por contar com décadas de conhecimento acumulado na indústria de petróleo e gás, que pode ser aplicado na avaliação de reservatórios para armazenamento de carbono. Para o geólogo, é preciso considerar a confiança pública na tecnologia. “O objetivo é aprisionar o CO₂. Premissa básica. Tem que ficar lá embaixo”, afirmou, ressaltando a importância de monitoramento, análise geológica e planos de contingência. Segundo o superintendente, o potencial brasileiro é amplo e pode atender não apenas ao setor de óleo e gás, mas também indústrias com emissões difíceis de eliminar, como cimento e siderurgia. “A indústria do petróleo tem a capacidade de desenvolver isso com a celeridade necessária para atender outras indústrias”. Para os participantes do painel, a combinação entre regulação, financiamento, desenvolvimento tecnológico e construção de confiança será fundamental para transformar projetos experimentais em uma nova infraestrutura de descarbonização. A expectativa da diretora da CCS Brasil é que, com a publicação do decreto e a regulamentação do mercado de carbono, o país consiga acelerar a implementação da tecnologia a partir de 2027.
Captura de carbono depende de regulação e mercado para ganhar escala no Brasil
Em painel na Rio Innovation Week, especialistas apontam potencial do Brasil com tecnologia, mas alertam para necessidade de marco regulatório claro







