Estudo mediu o impacto da expressividade emocional paterna e os resultados foram contundentes: os filhos apresentavam menores índices de ansiedade, maior capacidade de resolver conflitos e vínculos mais estáveis 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Pais mais abertos e emotivos — Foto: Magnific Mufasa caminha ao lado de Simba em "O Rei Leão". Tendo o céu africano como pano de fundo, abaixa a cabeça até ficar na altura do filhote e explica que coragem nunca significa ausência de medo. A cena dura apenas alguns segundos, mas encerra uma ideia inteira sobre a paternidade: um pai deixando algo de si na intimidade de uma conversa. Esse legado continua atravessando gerações. O amor agora também encontra espaço em uma conversa antes de dormir, em um pedido de desculpas, em um abraço inesperado. É nesses gestos mínimos que esses pais começam a escrever outra herança emocional para os filhos. A transformação atravessa almoços em família, grupos de mensagens, campos de futebol infantil, viagens escolares e pequenas rotinas. Ela pulsa em frases simples, impensáveis há algum tempo. — Digo que os amo o tempo todo. Tento fazê-los rir, estar sempre de bom humor — conta Juan Cruz Gioia, pai de Santi e Francesco. Guillermo Busquiazo, chef de cozinha, pai de Celina, Rosario, e Catalina, acrescenta outra cena cotidiana: — Aprendi que mostrar o que sentimos também educa. Meus filhos precisam ver que uma pessoa pode se emocionar, se sentir sensível, cansada ou passar por momentos difíceis e, ainda assim, seguir em frente. Durante grande parte do século passado, o modelo masculino funcionou em torno do esforço, da provisão econômica e de uma certa firmeza emocional. O afeto paterno aparecia codificado em atos concretos: longas jornadas de trabalho, contas pagas, férias em família, comida na mesa. Palavras de carinho, abraços frequentes ou conversas íntimas ficavam relegados a segundo plano. As ciências sociais começaram a registrar essa mudança. Um estudo conduzido pelo pesquisador Daniel Singley e sua equipe, da Universidade da Califórnia, revelou que pais que expressam emoções regularmente diante dos filhos estabelecem vínculos significativamente mais seguros com eles: os filhos apresentavam uma capacidade 34% maior de regular as próprias emoções em situações de estresse. — A figura paterna tem um peso específico na construção do vocabulário emocional dos filhos. Quando um pai nomeia o que sente, está oferecendo ao filho um mapa para compreender o mundo interior — explica Singley. Nenhum pai acordou certa manhã transformado em especialista em emoções. A mudança começou, em muitos casos, a partir de pequenas fissuras: um filho que faz uma pergunta, uma separação, uma terapia, a morte de alguém próximo, uma conversa difícil em meio ao cansaço do cotidiano. Algo começou a romper a expectativa tradicional de que sensibilidade era fraqueza e força significava silêncio. — Tive um pai muito dedicado ao trabalho, submetido às oscilações econômicas. Hoje entendo aqueles esforços como atos silenciosos de amor — lembra o psicólogo Matías Muñoz, pai de Lola e Jerónimo. — Talvez a maior diferença seja tentar fazer com que circulem mais palavras entre meus filhos e eu. Conseguir ter conversas emocionais. Para quem cresceu em famílias emocionalmente silenciosas, isso exige esforço. O amor vinha na forma de fatos, de ações cotidianas. Diferentes interpretações A psicóloga de Harvard Katie A. McLaughlin, especialista em vínculos na primeira infância, afirma que os filhos interpretam o estado emocional dos pais como uma informação sobre si mesmos. — Um pai triste que não explica sua tristeza pode ser interpretado por uma criança como: "Fiz algo de errado". Já a transparência emocional do adulto livra a criança desse peso e ensina que os estados emocionais têm causas externas, que as emoções difíceis não são permanentes e que nomeá-las é o primeiro passo para atravessá-las. Roque Ruiz, antropólogo e pai de Oscar, 7, e Anastasia, 5, viveu isso quando perdeu um colega muito querido. Tentava lidar sozinho com o luto, em silêncio, como aprendera que essas coisas deveriam ser feitas. Oscar percebeu. — Uma tarde, ele me perguntou por que eu estava "com cara de triste". Em vez de dizer que não era nada, expliquei que havia perdido um amigo e que isso me deixava muito triste. Ele me ouviu com uma seriedade que eu não esperava de uma criança da idade dele. Depois perguntou: "E você lembra das coisas bonitas dele?". Respondi que sim, de muitas. "Então está tudo bem", disse. Naquela noite entendi que as crianças não precisam que escondamos a dor delas; precisam ver que a dor também passa. Sua formação acadêmica lhe permitiu entender de onde vinha o obstáculo. — Estudar a construção cultural do gênero me deu as ferramentas para compreender de onde vinha essa ideia, mas entendê-la não basta para transformá-la na prática. Isso exige outro trabalho, mais cotidiano, mais humilde. Cada vez que me permito mostrar o que sinto diante dos meus filhos, sinto que estou desfazendo um nó que vem de muito longe. Um estudo da Universidade de Melbourne, coordenado pelo pesquisador Mark Dadds, mediu o impacto da expressividade emocional paterna em 847 famílias ao longo de oito anos. Os resultados foram contundentes: filhos de pais com alta expressividade emocional apresentavam menores índices de ansiedade, maior capacidade de resolver conflitos interpessoais e vínculos mais estáveis na adolescência. — O exemplo emocional dos pais é tão determinante quanto aquilo que ensinam de forma explícita. Os filhos aprendem a ser pessoas observando seus pais serem pessoas — explicou Dadds. O que os filhos devolvem Ninguém avisou a esses pais que isso aconteceria. Que, no momento em que decidissem se abrir, receberiam de volta algo que nenhum livro sobre criação dos filhos havia mencionado: a constatação de que seus filhos já sabiam. Um estudo da Universidade Harvard, conduzido pela pesquisadora Jenny Yip, documentou a ressonância emocional bidirecional entre pais e filhos. — Quando os adultos expressam emoções de forma coerente e regulada, os neurônios-espelho das crianças são intensamente ativados, o que gera um aprendizado emocional vicário qualitativamente diferente daquele obtido por meio de instruções diretas — explica Yip. Em termos simples: um pai que chora diante do filho ensina mais sobre o luto do que mil conversas sobre o assunto. Sebastián Valles, empresário, pai de Luisa, Margarita e Carmen, descreve a reciprocidade do vínculo com as três filhas com uma honestidade que inclui suas próprias contradições. — Quando a gente abre o coração, elas também abrem. Muñoz, da perspectiva de psicólogo, oferece uma visão que ajuda a entender o mecanismo. — A geração dos meus filhos fala e diz o que a incomoda. Mesmo que isso nos deixe desconfortáveis, eles nos dão a oportunidade de nos transformarmos e de não despejarmos sobre eles nossas tensões ou conflitos. Eles podem nos ensinar muito com essa espontaneidade. Uma obra que nunca termina Ser pai sempre foi uma obra em construção, mas esta geração parece ser a primeira a ter plena consciência disso. Martín Sivak, jornalista e escritor, pai de Camilo, 16, e Opi, 3, conhece bem essa tensão entre legado e escolha. — Meu pai era muito carinhoso fisicamente e procurava criar momentos de conexão comigo, mas estava mais distante dos acontecimentos do dia a dia, que acabavam recaindo sobre a minha mãe. Com os filhos, escolheu outro tipo de presença: cozinhar para eles, acompanhá-los, participar do cotidiano sem solenidade. — Expresso um repertório muito amplo de emoções, quase sem vergonha. Às vezes penso que deveria guardar um pouco mais para mim, mas também não consigo ser de outro jeito. Valles resume esse aprendizado com uma imagem que herdou da mãe. — Ninguém ensina a ser pai, e você vai escrevendo num caderno em branco, sem borracha. O que você escreveu já está escrito. Não dá para apagar; talvez, na frase seguinte, se perceber que a anterior não saiu tão boa, possa tentar fazer melhor, mas apagar, não dá. Muñoz acrescenta: — Gostaria que eles guardassem a ideia de que tiveram um pai e uma mãe que querem que eles confiem no que sentem. Que procurem conhecer a si mesmos e que seus desejos sejam seus principais motores. Que caminhem em direção ao amor — por si mesmos e pelos outros —, que possam se sentir dignos e boas pessoas. Se, de alguma forma, conseguirmos ajudá-los a amar e a serem eles mesmos, sentiremos que valeu a pena. Um levantamento realizado pelo Centro de Estudos da Família da Universidade de San Andrés com 1.200 pais argentinos entre 30 e 55 anos revelou um dado que sintetiza a mudança geracional: 71% dos entrevistados consideram que a capacidade de expressar emoções é o principal atributo que desejam transmitir aos filhos, acima da responsabilidade, do esforço e da autonomia. Há 20 anos, em uma pesquisa comparável realizada pela mesma instituição, a resposta predominante era "disciplina" e "cultura do trabalho". O vocabulário da paternidade está sendo reescrito em tempo real. Mufasa entende que criar Simba jamais significa apenas prepará-lo para o mundo exterior. Significa também ensiná-lo a conviver consigo mesmo.