Entre os entrevistados, 62% reconhecem que já gritaram com os filhos e 65% afirmam que sofreram agressões físicas na própria infância 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Levantamento realizado pelo Instituto Futuro é Infância Saudável (Infinis), em parceria com a Quaest, mostra que 49% dos brasileiros já deram tapas em crianças — Foto: Freepik RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 14/07/2026 - 22:20 Uso de Palmada na Educação Infantil Persiste e Prejudica Desenvolvimento, Apontam Especialistas Especialistas destacam os impactos negativos de agressões físicas na educação infantil, apesar de muitos brasileiros ainda utilizarem a palmada como método disciplinar. Pesquisa do Instituto Infinis e Quaest revela que 62% dos entrevistados já gritaram com os filhos e 65% sofreram agressões na infância. A Lei da Palmada, sancionada em 2014, proíbe castigos físicos, mas a prática ainda persiste, afetando o desenvolvimento emocional e cognitivo das crianças. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Embora a maioria dos brasileiros condene a violência na educação dos filhos, especialistas afirmam que a palmada continua produzindo efeitos que podem acompanhar a criança por toda a vida. Além de favorecer ansiedade, depressão e dificuldades emocionais, as agressões comprometem o desenvolvimento cerebral e ajudam a perpetuar um ciclo de violência entre gerações, segundo avaliação feita a partir da pesquisa do Instituto Futuro é Infância Saudável (Infinis) e da Quaest, divulgada ontem. — O abuso na infância está associado ao uso da violência nas relações futuras. Do ponto de vista neurológico, também afeta o desenvolvimento cognitivo — resume o pediatra Daniel Becker. Entre os entrevistados, 62% reconhecem que já gritaram com os filhos. Além disso, 65% afirmam que sofreram agressões físicas na própria infância, um indício de que esses padrões de educação se repetem entre gerações. — Esses adultos brasileiros com mais de 18 anos têm, ao mesmo tempo, o medo de exagerar para mais, mas também o medo de exagerar para menos. Percebo que as pessoas estão reproduzindo o que fizeram com elas porque é isso o que sabem. Não estão preparadas nem pensaram a respeito. Têm o medo de liberar demais e criar um menino mimado, aí resolvem bater. E tem a outra experiência de simplesmente gritar, xingar, ameaçar e bater, porque é assim que funciona. Os dois extremos estão documentados — detalhou Felipe Nunes, CEO da Quaest, durante coletiva de imprensa sobre os dados. Teoria e prática: os resultados de levantamento sobre violência contra crianças — Foto: Arte O Globo Os números também mostram que a violência como recurso para tentar disciplinar crianças segue, em certa medida, naturalizada socialmente: 62% dos brasileiros descartam interferir ao presenciar uma agressão em público, seja por receio de se envolver ou por acreditarem que a educação dos filhos diz respeito apenas às famílias. Só 21% afirmam que abordariam o responsável para dizer que aquela atitude não é adequada, e 15% chamariam a atenção de outras pessoas ou acionariam a polícia. Na semana passada, um homem foi preso em Francisco Beltrão, no sudoeste do Paraná, após ser flagrado por câmeras de segurança chutando o rosto da filha de 3 anos. Nas imagens, uma testemunha chega a se aproximar, mas se afasta sem maiores intervenções. Mais tarde, ele contou que temeu pela própria segurança e optou por denunciar o episódio às autoridades. Por outro lado, há uma ampla maioria que considera inaceitáveis comportamentos como xingar, ameaçar ou bater. São 91% os que rejeitam ofensas verbais, e 79% condenam agressões com objetos, por exemplo. — Mesmo as pessoas acreditando que, racionalmente, o diálogo é o ideal, nos momentos em que elas ficam mais irracionais, nos momentos de estresse, acabam recorrendo a modelos que elas aprenderam, naturalizando a violência — avalia Manuela Santos, doutora em psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que alerta para os impactos desses episódios. — São crianças que vão ter sintomas de ansiedade, depressão, dificuldade de regular as emoções, uma sensação de insegurança constante. Elas podem começar a acreditar que o amor requer um pouco de agressividade. Isso acaba desorganizando e deformando a forma como compreendem os relacionamentos de uma maneira geral. Lei da Palmada Sancionada em 2014, a Lei da Palmada, também conhecida como Lei Menino Bernardo — em referência ao caso de uma criança de 11 anos morta pelo pai e a madrasta no Rio Grande do Sul —, proíbe o uso de castigos físicos ou tratamentos cruéis e degradantes na educação infantil. Se houver descumprimento, o autor pode ser advertido e encaminhado a programa oficial ou comunitário de proteção à família ou a tratamento psicológico ou psiquiátrico. — Ainda que tenhamos avançado em legislação e na conscientização sobre os direitos das crianças, a pesquisa mostra que ainda existe uma lacuna significativa entre aquilo que os brasileiros consideram correto e aquilo que acontece na prática. Compreender essas percepções é fundamental para romper o ciclo intergeracional de violência e orientar políticas públicas de prevenção. Cada criança protegida hoje representa menos violência amanhã — argumenta a diretora-executiva do Infinis, Márcia Kalvon, ressaltando a importância da valorização do diálogo, um dos dados mapeados pelo levantamento. — É uma maneira de educar que reforça aspectos positivos para o desenvolvimento saudável da criança. Se acompanhado de afeto, com valores e limites, tem capacidade protetiva. E em momentos nos quais você precisa estabelecer mais limites, que eles sejam colocados nessa forma de diálogo, e não com comportamentos violentos. Pediatra e colunista do GLOBO, o médico Daniel Becker explica que tanto a violência física quanto a verbal ou psicológica estão entre os fatores de maior nocividade para o desenvolvimento de uma criança. Se as agressões ocorrem na primeira infância, além das possíveis consequências imediatas, a prática pode produzir efeitos de longo prazo. — Do ponto de vista neurológico, a violência na infância vai hipertrofiar as partes do cérebro, especialmente a amígdala, envolvidas na geração de hormônios de estresse, como o cortisol. Tudo isso vai afetar o desenvolvimento cognitivo. Desempenho futuro O neurologista infantil Hélio Van Der Linden corrobora a fala de Becker. Segundo o especialista, é na fase dos primeiros anos de vida que o indivíduo faz as conexões mais importantes do cérebro, configurando um período fundamental para desempenhos cognitivos e sociais no futuro. — Um ambiente acolhedor e estimulante é fundamental para o desenvolvimento motor, social e cognitivo da criança. Se ela cresce em um espaço de violência, os processos neuronais acabam se voltando muito para um processo de defesa, de fuga, de sobrevivência — reforça. Para a educadora parental Cláudia Alaminos, exercitar a formação infantil a partir de combinados antecipados é um modelo mais eficiente do que a mera repreensão ou a agressividade. Alaminos frisa que, embora tanto a criança quanto o responsável possam ser tomados pela emoção se algo “passa do limite”, cabe ao adulto viabilizar uma dinâmica mais saudável, que também pode passar pelo que ela chama de “perda de privilégios”. — Se eu sei que meu filho é “danado” e vai querer mandar na brincadeira quando está na pracinha, que todos vão ficar chateados com ele, posso combinar antes: “Meu filho, se você começar a fazer isso, nós vamos embora”. Você não bateu na criança, você tirou o privilégio de ela brincar mais tempo com os amigos — exemplifica. (*Estagiário sob a supervisão de Luã Marinatto)