A ampla maioria da população reconhece que diferentes formas de violência deixam marcas profundas no desenvolvimento infantil 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Violência contra crianças — Foto: Freepik Um dos paradoxos mais nocivo que presenciamos, com frequência, é que adultos que sofreram maus tratos quando crianças, tendem a impor o mesmo tratamento a seus filhos. Parece incongruente, mas o fenômeno se dá simplesmente porque, quando somos crianças, nossos pais são o único modelo que temos. A forma como eles se comportam é, para nós, o padrão do que é correto e deve ser feito. Não conseguimos avaliar se estão agindo bem e não temos condições de entender a realidade complexa que vivem. Quando chega nossa vez de educar as crianças, instintivamente repetimos aquilo que foi feito conosco. Romper esse ciclo não é fácil porque implica desconstruir uma lógica profundamente arraigada em nossas mentes. Mas processos de conscientização têm o poder de modificar a cultura, e a última edição da pesquisa “Atitudes e percepções sobre a infância e violência contra crianças e adolescentes no Brasil”, realizada pelo Infinis-Quaest, mostra que estamos avançando nesse sentido. O estudo criou índices (que variam de 0 a 10) para avaliar quantos adultos haviam experimentado algum tipo de atitude violenta por parte dos pais, quantos tinham adotado atitude violenta em relação a crianças e quantos consideram aceitáveis essas atitudes violentas. O índice dos que sofreram violência ficou em 5,7 e a notícia interessante é que o índice dos que praticaram atitudes violentas contra crianças foi bem menor, ficando em 3,3. Isso quer dizer que uma parcela significativa de pais deixou de reproduzir a educação violenta que recebeu. E o melhor é que o índice dos que declaram ser aceitável atuar com violência contra crianças atingiu 3,1, ou seja, é ainda menor do que os que a praticam, apontando que o caminho deve ser continuar restringindo a violência. Outro dado relevante reforça essa mudança cultural. A pesquisa mostra que a ampla maioria da população brasileira reconhece que diferentes formas de violência deixam marcas profundas no desenvolvimento infantil. Esse entendimento é importante porque revela que a sociedade vem ampliando sua compreensão sobre o impacto dos maus-tratos, que não se limita às agressões físicas, mas inclui humilhações, ameaças, gritos e outras formas de violência que, muitas vezes, foram naturalizadas por diversas gerações. É fundamental lembrar que não adotar atitudes violentas não implica, de modo algum, em não educar. A mesma pesquisa mostrou que 98% dos brasileiros consultados acreditam que é preciso cobrar disciplina e obediência da criança para que ela aprenda bons valores e 73% consideram que crianças criadas com muita liberdade se tornam adultos irresponsáveis. Portanto, o que está em discussão não é se devem ser impostos limites às crianças, mas quais os métodos a serem aplicados para isso. Como aponta a própria pesquisa, limites, por meio do diálogo e afeto, são fatores protetivos que se leva para a vida toda. Neste ano, a Lei da Palmada, como ficou conhecida a Lei Menino Bernardo nº 13.010/2014, completa 12 anos. Ela alterou o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) para proibir o uso de castigos físicos, tratamentos cruéis ou degradantes como formas de correção, disciplina ou educação de crianças e adolescentes. A mudança representou um marco ao reconhecer que a violência não pode ser considerada um instrumento educativo e reforçou o direito de crianças e adolescentes. Apesar do muito que ainda é preciso avançar para garantir uma infância segura e acolhedora, estamos no caminho certo. Proteger uma criança hoje é romper o ciclo de violência intergeracional.
A educação que sonhamos e a que praticamos
A ampla maioria da população reconhece que diferentes formas de violência deixam marcas profundas no desenvolvimento infantil







