Ninguém aprende a controlar a própria agressividade apanhando de quem deveria lhe ensinar o caminho 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Crianças brincam em oficina literária na Flip, em Paraty — Foto: Alexandre Cassiano A pesquisa recente “Atitudes e percepções sobre a infância e violência contra crianças e adolescentes” revela um paradoxo inquietante: 91% dos brasileiros afirmam que o diálogo é a melhor forma de educar uma criança. Ainda assim, 62% admitem já ter gritado com um filho, 49% reconhecem ter dado tapas e 27% afirmam ter usado objetos para bater. À primeira vista, os dados parecem apontar uma incoerência. Como defender o diálogo e recorrer à violência? Por trás dos números, existe uma realidade mais complexa. Não estamos diante de pais que acreditam na violência como melhor escolha. Estamos diante de adultos que, nos momentos de maior estresse, não conseguem colocar em prática aquilo em que acreditam e acabam recorrendo às estratégias que aprenderam ao longo da vida para controlar o comportamento infantil. O médico Gabor Maté explica que muitas das nossas reações automáticas têm origem nas experiências vividas na própria infância. Não por acaso, a pesquisa mostra que 65% dos brasileiros sofreram agressões físicas quando eram crianças. A violência não se perpetua apenas como comportamento aprendido; também se instala como resposta emocional automática. Romper esse ciclo exige consciência, prática e novas ferramentas. Jane Nelsen, criadora da Disciplina Positiva, afirma que “as pessoas fazem melhor quando sabem fazer melhor”. Se a maioria dos pais deseja educar pelo diálogo, mas continua gritando, talvez o problema não seja falta de amor, mas falta de conhecimento sobre como estabelecer limites com firmeza, sem recorrer a medo, punições, autoritarismo e permissividade. A mudança de comportamento para uma educação respeitosa começa pelo reconhecimento de uma verdade simples, porém negligenciada pela nossa sociedade centrada no adulto: a criança não é um miniadulto. Ainda não possui maturidade emocional, psicológica nem neurológica para responder como esperamos. Está aprendendo a reconhecer, organizar e expressar as próprias emoções. Por isso, quando se frustra, sente medo ou raiva, ela chora, grita, bate, se joga no chão. Não porque deseje desafiar os pais, mas porque, naquele momento, ainda não consegue fazer diferente. O comportamento que esperamos de uma criança precisa ser ensinado. A violência até produz obediência imediata, mas não aprendizagem emocional. Ninguém aprende a respeitar sendo desrespeitado. E ninguém aprende a controlar a própria agressividade apanhando de quem deveria lhe ensinar o caminho. A parentalidade consciente exige que o adulto olhe além do comportamento. A pergunta deixa de ser “como faço meu filho obedecer?” e passa a ser “o que está acontecendo com esta criança?” e, igualmente importante, “o que está acontecendo comigo para que eu esteja reagindo desta maneira?”. Conhecer os próprios gatilhos, reconhecer os limites do estresse e aprender novas formas de responder são parte inseparável da educação dos filhos. Precisamos, portanto, mudar o foco da conversa. Não basta dizer aos pais que não gritem ou que não batam. É preciso aprender como fazer diferente e decidir não entregar aos filhos as mesmas feridas que recebeu. Para isso é necessário investir em educação parental, oferecer conhecimento sobre desenvolvimento infantil e fortalecer o autoconhecimento dos adultos. Toda criança merece crescer num ambiente seguro. E toda família merece aprender que educar sem violência não é um dom, é uma competência que precisa ser construída. *Flavia Soares, jornalista e psicanalista, é especialista em comunicação não violenta e educação parental
Por que pais que defendem o diálogo ainda batem nos filhos?
Ninguém aprende a controlar a própria agressividade apanhando de quem deveria lhe ensinar o caminho







