O efeito assimétrico dos juros altos sobre as classes sociais demanda zelo redobrado na política econômica 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O consumo das famílias perde fôlego. Ele cresceu 1,3% em 2025 em relação ao ano anterior, ante o crescimento de 5,1% em 2024. No entanto, há sinais de descompasso na dinâmica de consumo entre as classes sociais. O segmento mais rico sente menos a desaceleração da economia. Essa dinâmica remete à ideia de desempenho da economia em um formato K (K-shaped economy), que surgiu na pandemia. Ele descreve uma dinâmica econômica desigual: enquanto uma parte da sociedade acelera o consumo, a outra fica para trás, pressionada por crescimento mais lento da renda e crédito caro. Nos Estados Unidos, a discussão sobre o K-shaped economy ganhou força em 2025 porque o crescimento passou a depender mais do grupo de renda mais alta. O debate gira em torno da ideia de que as classes mais privilegiadas se beneficiam da renda gerada por setores ligados a novas tecnologias, enquanto as classes populares sentem mais as consequências do aperto monetário. No Brasil, há sinais compatíveis com esse tipo de dinâmica. Um exemplo é o aumento de 11% (em dólar) dos gastos de brasileiros no exterior em 2025, somando US$ 22 bilhões. Nos primeiros sete meses de 2026, o crescimento foi de 16% em relação ao mesmo período de 2025, segundo o Banco Central. Nessa linha, houve aumento de 9,5% no número de passageiros de avião em 2025, sendo a alta de 8,4% em voos domésticos (no Norte e Nordeste, o crescimento médio foi bem menor, de 4,6%) e de 13,5% em voos internacionais. Outro sinal vem do mercado de bens duráveis de alto valor. O licenciamento de automóveis importados cresceu 11% em 2025, com 29,7 mil unidades emplacadas, e nos primeiros seis meses deste ano o crescimento foi de expressivos 30% em relação ao mesmo período de 2025, segundo a Anfavea. Já os emplacamentos de carros nacionais, o crescimento foi de 0,8% em 2025 e 22% no primeiro semestre de 2026. A ponderação a ser feita é a crescente substituição de veículos com motor a combustão por veículos elétricos importados, elevando a participação do importado a 18% (o pico foi 26% em 2011, com a economia bastante aquecida). Enquanto isso, o consumo aparente de bens duráveis (calculado pelo Ipea, somando a produção doméstica e a importação, e subtraindo a exportação) cresceu apenas 1,5% em 2025, atingindo um patamar médio ainda 11% inferior ao pico de 2013, antes da grande recessão de meados de 2014-2016. Outro exemplo é o mercado imobiliário. O segmento residencial de luxo e superluxo encerrou 2025 com recordes históricos nas capitais brasileiras. Houve alta de 35% na venda de unidades com valor acima de R$ 2 milhões, segundo um estudo da Brain Inteligência Estratégica, divulgado pela Forbes Brasil. Esses dados sugerem uma dinâmica econômica em duas velocidades. A explicação para isso está, em parte, no crescimento desigual da renda. Os domicílios 10% mais ricos tiveram aumento de rendimento real per capita de 8,7% em 2025 ante 3,1% dos 10% mais pobres, segundo a Pnad-IBGE. Mas não é só isso. As famílias de renda alta, investidoras, se beneficiam dos ganhos no mercado financeiro, enquanto as classes médias enfrentam condições severas no mercado de crédito, como refletido nas elevadas taxas de inadimplência. O Brasil não exibe o mesmo dinamismo da economia norte-americana, com a liderança do setor de tecnologia. Por outro lado, a K-shaped economy tende a ser potencializada pelo perfil da dívida pública. A participação da dívida prefixada no estoque da dívida mobiliária interna do governo federal está na casa de 22%, ante o pico de 43,3% no final de 2013. É enorme a distância em relação à experiência internacional, onde prevalece a utilização de dívida prefixada, algo como 80% do estoque — a participação de papéis com taxa de juros pós-fixada é geralmente residual. Ocorre que, na dívida prefixada, a alta dos juros implica perda de capital para o investidor, o que aumenta a potência da política monetária para conter o crescimento da demanda, enquanto a dívida pós-fixada gera renda adicional ao investidor. Esse efeito assimétrico dos juros altos sobre as classes sociais demanda zelo redobrado na política econômica. É necessário garantir a focalização das políticas públicas nos mais pobres e recuperar a disciplina fiscal para permitir taxas de juros mais baixas, de modo a conter a penalização das classes médias.