Dados de operações de cartões do Santander (IGET) mostram recuo dos serviços às famílias de 7% em junho, na comparação ano contra ano. No caso de alojamento e habitação, a queda foi de 8,7%. O IDAT do Itaú também corrobora esse quadro de desaquecimento.PUBLICIDADEA possibilidade de uma desaceleração mais abrupta da economia é um risco que o Banco Central evidentemente monitora de perto. Mas não é ainda algo que preocupe a maioria do mercado como risco de curto prazo.Fernando Rocha, economista-chefe da gestora JGP, aponta que indicadores como o IGET são muito voláteis, e por isso devem ser tomados com bastante cautela como sinalizadores de tendência.Ainda assim, o analista vê uma desaceleração em curso, mas gradual. Ele projeta crescimento no segundo trimestre (contra o trimestre anterior, dessazonalizado) de 0,4-0,5%, ante 1,1% no primeiro tri, na mesma base de comparação. Rocha mantém a projeção de crescimento de 2% no ano, para a qual basta que o crescimento trimestral se mantenha na casa de 0,4%.Mesmo sem detectar risco iminente de desaceleração mais aguda, Rocha acha que esse cenário pode ocorrer em algum momento mais adiante, por causa do endividamento excessivo de empresas e famílias.PublicidadeEle observa que o comprometimento de renda das famílias com o serviço das dívidas passou de 20% para 30%. Considerando que a renda do trabalho perfaz cerca de 60% do PIB, esse aumento de 10 pontos porcentuais (pp) no comprometimento de renda significa algo em torno R$ 700 bilhões, segundo o economista.O analista acrescenta que tanto a dívida do setor privado (famílias e empresas) quanto a pública, como proporção do PIB, estão hoje em nível bem mais elevado do que em 2014, às vésperas de uma das piores recessões da histórica econômica brasileira."As condições estão criadas para uma desaceleração abrupta", diz Rocha, mas sem ver sinais de que isto esteja para acontecer agora.Carlos Thadeu de Freitas, economista sênior da corretora BGC, considera que os dados de cartões dos bancos sinalizam que o processo de desalavancagem das empresas "já ensaia chegar no consumidor".O nível de baixa recorde do desemprego ainda não aponta essa retração, mas ele pensa que a freada pode vir inicialmente pelo canal do endividamento e das expectativas.PublicidadeFreitas assinala que o mês de junho teve fatores mais ocasionais que podem ter sido negativos para o consumo, como a Copa e o frio (que mantêm as pessoas mais em casa). Ainda assim, ele vê a economia caminhando para uma desaceleração mais forte. Segundo o analista, em julho já há dados iniciais apontando deflação bastante atípica das refeições fora de casa.PUBLICIDADE"A atividade econômica pode gerar surpresas desinflacionárias no curto prazo", avalia Freitas.Mas essa análise do economista está longe de configurar consenso ou mesmo de ser a visão majoritária do mercado, em que ainda há muitos descontentes com o que seria a vontade de o BC prosseguir cortando o juro, mesmo num cenário inflacionário problemático."Tem alguns números piores de atividade, mas não considero que seja nada superfraco, ainda mais depois de dois trimestres melhores; não é a desaceleração que levaria a uma desinflação maior, mas, sem dúvidas, vai ser comemorada pelo BC", rebate uma analista.Fernando Dantas é colunista do Broadcast e escreve às terças, quartas e sextas-feiras (fojdantas@gmail.com)PublicidadeEsta coluna foi publicada pelo Broadcast em 14/7/2026, terça-feira.