O Banco Central (BC) deve estar torcendo para que a moderada queda no rendimento real do trabalho na PNADC de maio (trimestre até maio) não seja mais um "falso positivo" - isto é, um falso sinal de que a finalmente há uma desaceleração mais contundente do salário médio.PUBLICIDADEO Copom, que está envolvido num imbróglio com o mercado por conta das suas decisões e comunicação recentes - com muitos analistas apontando perda de credibilidade -, deve ansiar por sinais de desaquecimento da economia, que possam justificar os cortes já realizados na Selic e outro(s) que porventura vier(em).O rendimento médio real do trabalho recuou 0,8% (ou 0,6% dessazonalizado) na comparação entre o trimestre terminado em maio com o trimestre terminado em fevereiro.Segundo Bruno Imaizumi, economista da 4intelligence, "não dá para tirar conclusão de apenas uma leitura de uma pesquisa que é amostral".Mas o analista considera que o recuo "é um sinal que vale acompanhar". Para ele, o mercado de trabalho permanece resiliente, mas em trajetória de desaceleração lenta.PublicidadeJá o economista Fernando Holanda de Barbosa Filho, especialista em mercado de trabalho do FGV-IBRE, nota que o recuo do rendimento deve ser visto com cautela, porque a série dessa comparação é bastante volátil."Uma andorinha só não faz verão", ele ressalva.Em termos anualizados (mas não dessazonalizados), o rendimento real do trabalho caiu 3,2% nessa PNADC de maio. Essa foi a primeira queda desde o recuo de 1,5% na PNADC de setembro de 2025.Mas a queda do ano passado foi, para Barbosa Filho, um "falso positivo" de desaceleração da renda do trabalho. No mesmo tipo de comparação, a renda voltou a crescer nas PNADCs subsequentes, com a alta chegando a 11,7% na pesquisa de janeiro (trimestre até janeiro).Mas há também sinal de redução do ritmo de alta do salário real na comparação entre um trimestre e o mesmo trimestre 12 meses antes. Nessa PNADC de maio, a alta foi de 4%, comparado a 5,4% na PNADC de janeiro.PublicidadeO recuo do rendimento do trabalho na margem foi um sinal de desaceleração em meio a outros indicadores que apontam mercado de trabalho ainda bem aquecido. Barbosa Filho observa que, em termos dessazonalizados, a taxa de desemprego está estabilizada num nível muito baixo, em torno de 5,5%, desde novembro."Não há sinal de arrefecimento", ele diz.A população ocupada (PO) também parece estabilizada em torno de 102 milhões, e a taxa de participação por volta de 62%, menos que o nível pré-pandemia, quando chegou a aproximadamente 63,5%.Barbosa Filho gosta de acompanhar o indicador de PO sobre a população em idade ativa (PIA), que não depende da taxa de participação, ao contrário da taxa de desemprego. A PO/PIA ficou em 58,6% na PNADC de maio, um pouco abaixo do pico recente de 58,9%.No geral, a PNADC de maio mantém o suspense sobre o estado real da economia brasileira. Se de fato há uma desaceleração, ainda que lenta, do mercado de trabalho (sinalizada inicialmente no salário), a aposta do BC em cortar a Selic, mesmo com piora das expectativas inflacionárias, tem um pouco mais chance de não dar errado. Mas, ainda assim, é uma postura arriscada e que ameaça a credibilidade duramente conquistada.PublicidadeFernando Dantas é colunista do Broadcast e escreve às terças, quartas e sextas-feiras (fojdantas@gmail.com)Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 26/6/2026, sexta-feira.
Opinião | Leves sinais de desaceleração no mercado de trabalho
O rendimento médio real do trabalho recuou 0,8% (ou 0,6% dessazonalizado) na comparação entre o trimestre terminado em maio com o trimestre terminado em fevereiro.














