O IPCA de junho, de 0,16%, deve ter representado forte alívio para o Copom. O índice veio não só abaixo da mediana do Projeções Broadcast, de 0, 31%, como foi inferior também ao piso das previsões, de 0,26%.PUBLICIDADEO Banco Central está enrolado em certo imbróglio com parte do mercado pelo que parece ser a vontade do Copom de prosseguir cortando a Selic, que já foi reduzida de 15% para 14,25%, mesmo com cenário inflacionário e de expectativas desfavorável.Laura Moraes, economista da gestora Neo Investimentos, observa que o Monitor da Inflação do FGV-IBRE (que faz coleta) estava apontando queda mais forte dos alimentos in natura nos dois últimos dias de junho. Havia alguma incerteza sobre se o IPCA do IBGE captaria essa queda, e esse 'risco para baixo' de fato se materializou - isto é, o recuo dos in natura veio maior que a encomenda.Moraes acrescenta que, em junho, houve deflação de 0,39% da alimentação no domicílio, com recuo de 0,34% das proteínas, de 0,26% dos alimentos in natura e de 0,48% dos demais alimentos. No caso dos in natura, ela assinala que "virou muito a chave, porque tinha subido 7,4% em maio".Nas contas da economista, do 0,15 ponto porcentual (pp) de surpresa positiva do IPCA de junho (0,16% do índice efetivo, ante mediana das projeções de 0,31%), uma parcela de 0,10pp deve-se à alimentação no domicílio, com destaque para os in natura.PublicidadeDos outros 0,5pp, 0,4pp se encontram no núcleo ex-3, que exclui todos os alimentos no domicílio e alguns serviços e bens industriais. Segundo a economista, nessa queda no ex-3 (núcleo que ela acompanha de perto), destacaram-se alimentação fora do domicílio e bens industriais.De qualquer forma, na visão de Moraes, a surpresa positiva do IPCA em junho foi bem mais forte (0,15pp) no chamado 'headline' (a inflação cheia) do que no núcleo (0,04pp).Assim, como a surpresa veio principalmente de itens voláteis, ela pensa que o IPCA de junho "não muda o orçamento de cortes da Selic nem a cautela". Por outro lado, o indicador representa um "pequeno alívio" num cenário marcado por fortes incertezas, como a guerra no Oriente Médio.A Neo Investimentos projeta IPCA de 5% este ano e de 4,4% em 2027. Já a Selic fica em 14,25% em 2026 e cai para 13% em 2027. O IPCA de junho, no entanto, faz com que Moraes aponte um "viés de baixa" na projeção de Selic em 2026. Isto é, ela já cogita da possibilidade de o BC esticar o ciclo de corte este ano (a próxima reunião é em agosto).Já outro profissional do mercado financeiro ouvido pela coluna, um gestor de recursos, diz que o IPCA mais benigno de junho combina "a fome com a vontade de comer", uma referência à percepção do mercado de que o Banco Central quer prosseguir cortando a Selic nas próximas reuniões.Publicidade"Esse IPCA faz parecer que não é um erro tão grosseiro o Copom cortar agora; poderia ser mais conservador, mas a situação inflacionária não está um desastre, está só ruinzinha, e o BC vai cortando", acrescenta o gestor.Mas ele aponta que a inflação de serviços também veio melhor, embora não a relativa aos serviços intensivos em trabalho.O gestor, que projeta que a Selic ainda seja cortada em 0,25pp nas próximas duas reuniões, indo para 13,75%, diz que agora está pensando em revisar a projeção para incluir mais cortes ainda em 2026.Fernando Dantas é colunista do Broadcast e escreve às terças, quartas e sextas-feiras (fojdantas@gmail.com)Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 10/7/2026, sexta-feira.Publicidade