Banco Central quis evitar montanha-russa nos juros e esticou prazo para levar inflação à metaCopom ficou em situação de ‘perde-perde’, sem saídas fáceis para a condução da política monetária. Crédito: EstadãoGerando resumoBRASÍLIA - A forte desaceleração do IPCA e da inflação subjacente em junho, mais intensa do que o previsto por todo o mercado, parece indicar que o Banco Central pode ter espaço para cortar a Selic mais uma vez em agosto, menos de 30 dias depois de uma redução dos juros duramente criticada, em junho.Nos últimos 20 dias, boa parte do mercado vinha apontando que o Comitê de Política Monetária (Copom) agiu contra o livro-texto ao reduzir a taxa básica de juros de 14,50% para 14,25%. Houve quem achasse que o BC cortou simplesmente porque queria — e sem que o cenário permitisse —, diante dos riscos para a inflação.BC não está olhando para o IPCA de agora, mas do primeiro trimestre de 2028 Foto: Wilton Junior/EstadãoMas os primeiros números apontam para um cenário diferente. O IPCA desacelerou de 0,58% em maio para 0,16% em junho — 0,15 ponto porcentual abaixo da mediana da pesquisa Projeções Broadcast, de 0,31%. É a segunda maior surpresa negativa para qualquer mês desde 2006, e o primeiro resultado abaixo do esperado este ano.PublicidadeLeia tambémNão só o BC puxa os juros para cima; também o credor do Brasil, já indiferente à política monetáriaO Banco Central ainda quer cortar o juro; a realidade, nãoGalípolo diz que problema do Copom foi de ‘excesso e não de falta de informação’PUBLICIDADEA média dos núcleos de inflação e os serviços subjacentes, mais sensíveis à política monetária, também desaceleraram e ficaram abaixo das expectativas do mercado, segundo os cálculos da Terra Investimentos. Aliás, os bens industriais, serviços, preços livres e preços administrados também aumentaram menos do que o esperado.As primeiras leituras do mercado são de um resultado “bastante positivo”. Mais de um analista já fala em um viés para baixo nas expectativas para a inflação de 2026, após a mediana do relatório Focus ter aumentado em 1,4 ponto porcentual desde o fim de fevereiro, com a eclosão da guerra entre Estados Unidos e Irã.Diversos economistas — de instituições como XP Investimentos, Capital Economics e Sicredi — afirmam que os resultados devem dar confiança ao Copom para reduzir a taxa básica de juros mais uma vez daqui a três semanas e meia, na reunião de agosto, embora a decisão vá depender da evolução do cenário até lá.PublicidadeÉ óbvio que a política monetária não reage, e nem deveria reagir, a uma única leitura de inflação. O balanço de riscos do Copom é assimétrico para cima, as expectativas de inflação do mercado continuam desancoradas e o BC não está olhando para o IPCA de agora, mas do primeiro trimestre de 2028.Além disso, o IPCA acumulado em 12 meses diminuiu (4,72% para 4,64%), mas continua acima do teto da meta de inflação, de 4,50%. A retomada dos conflitos no Oriente Médio esta semana, que levou a um aumento dos preços do petróleo, também adiciona mais fatores de cautela à autoridade monetária.Mas as informações disponíveis até aqui indicam que as críticas ao Copom por uma decisão descabida ao reduzir a Selic em junho podem ter sido exageradas. O alívio da inflação corrente é uma sinalização positiva após a manutenção dos juros em nível muito restritivo desde o início do ano passado.PublicidadeSe as próximas leituras do IPCA continuarem indicando um alívio sustentado das pressões sobre os preços, e os dados de atividade econômica confirmarem a expectativa de desaceleração, o Banco Central de Gabriel Galípolo pode afirmar que o cenário evolui conforme o esperado e manter o seu ciclo de calibração, tornando os juros menos restritivos.