A economista Cecília Machado, que também é colunista da Folha, escreveu um artigo nesta semana alertando para os impactos negativos que um forte aumento do endividamento das famílias pode ter sobre o crescimento econômico brasileiro no futuro próximo.
Ela está correta: há bastante evidência empírica documentando essa relação. A principal referência é o artigo "Indebted Demand", de autoria de Atif Mian, Ludwig Straub e Amir Sufi, publicado em 2021 no renomado The Quarterly Journal of Economics (versões preliminares desse artigo estão disponíveis pelo menos desde 2017, vale notar).
Um outro estudo nessa mesma linha que vale a pena ser citado é "Understanding the Macro-Financial Effects of Household Debt: A Global Perspective", preparado por economistas do FMI (Fundo Monetário Internacional).
Esses estudos apontam que elevações do endividamento das famílias geram mais crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) no curto prazo, mas cobram um preço, em termos de menor crescimento, no médio prazo (3 a 5 anos depois, aproximadamente). É um fenômeno que muitas vezes é denominado, em inglês, como "debt overhang" —em tradução livre para o português, "ressaca de endividamento".
Essa ressaca tende a ser maior quanto maior for o aumento da alavancagem das famílias no período de acumulação de dívidas —"quanto mais alto, maior a queda"— e quanto maior for a contribuição do crédito imobiliário nesse aumento do endividamento (já que os prazos de amortização nesse tipo de empréstimo são bem longos, muitas vezes ultrapassando 10 anos).










