O Banco Central (BC) disse, nesta quarta-feira (3), que o cenário de contínuo aumento da participação de modalidades mais onerosas na composição da dívida das famílias requer cautela e “diligências adicionais no mercado de crédito”. A autoridade monetária divulgou ata da última reunião do Comitê de Estabilidade Financeira (Comef), realizada em 26 e 27 de maio. No documento, o BC disse que, para as famílias, os níveis elevados de ativos problemáticos e de probabilidade de “default” (calote) permanecem indicando que a materialização de risco deve continuar pressionada. O endividamento e o comprometimento de renda das famílias estão historicamente elevados e seguiram aumentando. “O contínuo aumento da participação de modalidades mais onerosas na composição da dívida deve continuar impactando o comprometimento de renda. O Comitê continuará aprofundando o debate sobre esse tema”, disse. O Banco Central disse que o cenário requer cautela para as instituições financeiras do Brasil, com a taxa básica de juros contracionista e o elevado endividamento de famílias e empresas. O Banco Central declarou que as companhias sentem o aperto monetário, mas a maior parte das corporações demonstra resiliência. Os níveis elevados de ativos problemáticos e probabilidade de “default” das famílias permanecem indicando que a materialização de risco deve continuar pressionada. O Banco Central defendeu que o cenário requer cautela e diligência adicionais no mercado de crédito. Segundo o BC, o crédito bancário brasileiro continuou desacelerando desde março. O crescimento das operações às famílias arrefeceu nas modalidades de maior risco, mas segue superior ao da carteira de menor risco. No crédito às pessoas jurídicas, a alta desacelerou para micro, pequenas e médias empresas. “Esse crescimento foi sustentado pelos programas de incentivo ao crédito. Para grandes empresas, houve reaceleração”, disse o BC. O mercado de capitais, por sua vez, reacelerou e segue crescendo em ritmo bastante superior ao do crédito bancário. O BC classificou como "aquecido" no primeiro trimestre, com leve desaceleração em abril. “As debêntures e as notas promissórias e comerciais impulsionaram esse crescimento. O aumento da relevância do mercado de capitais como fonte de financiamento para empresas ocorreu apesar das aberturas de spreads de debêntures incentivadas e dos resgates líquidos em fundos de crédito privado.” Segundo a ata, as provisões no sistema financeiro estão compatíveis com as estimativas de perdas esperadas. Embora tenha aumentado a materialização de riscos, o nível melhorou levemente e permanece alinhado ao calculado com base nos modelos internos da autoridade monetária. O BC disse ainda que há instituições financeiras com provisão inferior à estimada pelo BC, mas o nível de capitalização é suficiente para absorver eventuais ajustes na grande maioria dos casos. Os níveis de capitalização e de liquidez do Sistema Financeiro Nacional mantiveram-se superiores aos requerimentos prudenciais. Além disso, disse o BC na ata do Comef, testes de estresse indicam que o sistema financeiro segue resiliente. Condições financeiras globais Ainda de acordo com a ata da última reunião do Comef, as condições financeiras globais estão “relativamente menos restritivas” do que no início de março. Segundo o BC, desde o encontro anterior, realizado em 3 e 4 de março, houve uma menor restrição nas condições financeiras, enquanto permanecem vulnerabilidades nas principais economias. “Após o aperto em março, a liquidez global elevada contribuiu para o retorno do apetite a risco, inclusive em economias emergentes”, disse o BC. Segundo a autoridade monetária, a inadimplência permanece elevada em modalidades de crédito nos EUA. Os riscos no segmento de crédito privado cresceram naquele país. Na China, o Banco Central avalia que houve uma desaceleração do crédito bancário e menor rentabilidade dos bancos. O movimento decorre da menor demanda por crédito em um ambiente de moderação da atividade econômica doméstica. O sistema financeiro internacional tem demonstrado resiliência diante de um novo choque de oferta, segundo a ata do Comef. Além disso, a evolução recente do conflito no Oriente Médio tem motivado revisões nas expectativas de inflação e sobre trajetórias fiscal e monetária. “A abertura de taxas de juros longas nas economias avançadas eleva a probabilidade de materialização de riscos. O regime de câmbio flutuante segue absorvendo choques”, disse o BC. O sistema financeiro internacional segue “realocação ordenada de posições e precifica também outros determinantes”, como, por exemplo, a perspectiva de retorno de investimento em inteligência artificial. O BC declarou, na ata, que persistem incertezas e o risco de uma interação entre os efeitos do atual choque de oferta e vulnerabilidades financeiras preexistentes. “O cenário requer ainda mais atenção”, afirmou o BC. Inteligência artificial Na ata do Comef, o BC afirmou ainda que os avanços recentes de modelos de inteligência artificial (IA) têm capacidade de explorar vulnerabilidades tecnológicas e ampliar riscos sistêmicos. Segundo a autoridade monetária, é preciso avançar no aprimoramento da resiliência cibernética do Sistema Financeiro Nacional (SFN). Segundo o texto, não há evidências de ataques totalmente conduzidos por tais modelos até o momento, mas a aceleração dessas capacidades pode elevar riscos sistêmicos, sobretudo em função de “dependências comuns e da possibilidade de impacto em infraestrutura críticas do sistema financeiro”. A ata do Comef defendeu que é preciso intensificar a resiliência cibernética, com foco na gestão de vulnerabilidades, desenvolvimento seguro e riscos de terceiros. Também se fazem necessárias as iniciativas coordenadas de avaliação e uso desses modelos