O alto endividamento das famílias brasileiras —que compromete cerca de 30% da renda— ocorre simultaneamente ao processo de inclusão financeira observado nos últimos anos. A abertura das informações de crédito por modalidade e faixa de renda deixa evidente que essa transformação está associada ao perfil de endividamento das famílias de baixa renda, bastante distinto do restante da população.
Da carteira de crédito das famílias com renda de até dois salários mínimos, 38,6% estão concentrados em modalidades sem garantia, e essas mesmas famílias respondem por 39,3% das operações no rotativo do cartão de crédito, a modalidade mais cara do mercado.
Para uma família nessa faixa de renda, qualquer choque —uma despesa de saúde ou a perda temporária do emprego— pode significar a necessidade de recorrer ao crédito mais caro disponível. A pesquisa de resiliência financeira da OCDE ajuda a dimensionar essa vulnerabilidade: 20% das famílias que recebem até dois salários mínimos não conseguiriam cobrir suas despesas por mais de uma semana após a perda da principal fonte de renda. Sem poupança ou reserva, o crédito caro acaba funcionando como um seguro improvisado.
Essa explicação —de que o endividamento em modalidades caras decorre de choques financeiros— costuma dominar o debate. E ela certamente importa. Afinal, famílias sem reservas estão mais expostas a imprevistos e têm menos capacidade de absorver perdas temporárias de renda. Mas evidências recentes sugerem que essa não é toda a história.














