Quase um mês após a invasão de cinco homens encapuzados na Aldeia Apiwtxa, localizada na Terra Indígena Kampa do Rio Amônia, na Floresta Amazônica do Acre, e 12 dias após uma reunião de lideranças indígenas com o governo federal, o Exército Brasileiro permanece em contato com a população Ashaninka e realiza escolta na região. A Polícia Federal também realizou uma operação de busca e apreensão, com prisão de cinco pessoas. Segundo Francisco Piyãko, coordenador-geral da Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá e Cacique da Aldeia Apiwtxa, a sensação de medo persiste e, apesar dos esforços policiais, a ação da PF já vinha sendo planejada há algum tempo e nada tem a ver com a incursão do dia 6. — Quando volta a nossa rotina? Quando nos sentiremos seguros em nosso próprio território? Aquele dia 6 de julho nos marcou muito, ameaçou nossa liberdade de viver em paz e isso é muito sério — afirmou o líder indígena em entrevista ao GLOBO. No dia 6 de julho, criminosos portando fuzis invadiram o território do povo Ashaninka. Relatos publicados pelo portal ambiental Sumauma indicam que os cinco homens responsáveis pela incursão falavam espanhol e miravam as lideranças da aldeia. A invasão faz parte de uma rotina constante de medo, vivenciada há anos pelas populações indígenas da fronteira entre o Brasil e o Peru. A situação do último mês levou lideranças a Brasília para tentar dar visibilidade à região. — Já falamos sobre isso há pelo menos dez anos e essa reunião (em Brasília) foi para dar visibilidade ao tema. A região da aldeia é de difícil acesso, sabemos que algumas operações precisam de autorização de instâncias superiores, mas o Estado tem que ter um olhar pra isso, pra resolver — disse Francisco. Não houve mortos ou feridos nesta incursão, mas Francisco Piyãko ressalta que o Governo Brasileiro não deve esperar o pior novamente para agir. — Não precisa ninguém morrer mais, já morreu tanta gente. O Bruno, no vale do Javari, é um exemplo. O Estado não pode ficar esperando um dia ter condições de agir — afirmou o líder, citando a morte do indigenista Bruno Araújo Pereira e do jornalista inglês Dom Phillips, em 2022, como uma das ações criminosas que assombram a região norte do país. Segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), após a reunião com as lideranças Ashaninka em Brasília, o governo federal se comprometeu a instalar uma mesa permanente de diálogo coordenada pelo Ministério dos Povos Indígenas (MPI), ampliar a proteção das lideranças ameaçadas por meio do Programa de Proteção aos Defensores dos Direitos Humanos, Comunicadores e Ambientalistas (PPDDH) e publicar um memorando de entendimento com o Peru para fortalecer a cooperação na proteção dos povos indígenas da região de fronteira. Francisco Piyãko afirmou que sentiu "vontade do Governo" em relação à melhoria das condições de segurança do local, mas "não deve ficar só na vontade". Quanto a ações concretas, a Polícia Federal confirmou a realização de uma operação voltada ao enfrentamento do tráfico de entorpecentes e de ilícitos ambientais na faixa de fronteira entre Brasil e Peru, abrangendo a região do Vale do Juruá. A ação, segundo o líder indígena, já vinha sendo acompanhada pela população Ashaninka e não tem relação direta com a invasão armada do último mês. Na operação, foram realizadas 445 abordagens terrestres e fluviais, com 34 apreensões, incluindo uma arma de fogo. Cinco pessoas foram presas. Questionada se os detidos tinham relação com a incursão, a PF não respondeu à reportagem. Operação da PF realizada em julho prendeu cinco pessoas e apreendeu uma arma de fogo — Foto: Polícia Federal Medidas de segurança Ao GLOBO, Francisco Piyãko disse que está retornando esta semana para a Aldeia Apiwtxa. Há cerca de três dias, o Exército Brasileiro realiza escolta no local e, segundo o líder, as tropas devem permanecer por mais uma semana. Além do apoio das tropas governamentais, o povo Ashaninka também adotou um sistema de vigilância próprio. A segurança redobrada tem motivo: o medo. — A sensação é de que estamos sendo constantemente observados, sempre por alguém armado. Nunca vivemos isso — concluiu o Cacique. Relembre o caso As lideranças Ashaninka foram a Brasília após a invasão da Terra Indígena Kampa do Rio Amônia, na região de Marechal Taumaturgo, no Acre, em 6 de julho. Na ocasião, cinco homens encapuzados, armados com fuzis e falando em espanhol, invadiram a aldeia Apiwtxa à procura de lideranças tradicionais, como Francisco Piyãko, espalhando medo entre os moradores. O episódio levou à deflagração da Operação Ashaninka, com a mobilização do Exército Brasileiro, da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública do Acre (Sejusp) e do Grupo Especial de Operações em Fronteira (Gefron). As lideranças afirmam que o ataque não foi um episódio isolado, mas o reflexo da expansão do crime organizado transnacional na fronteira entre Brasil e Peru. Segundo elas, o avanço de grupos ligados ao narcotráfico, à exploração ilegal de madeira, à grilagem de terras e a outros crimes ambientais tem sido impulsionado pela abertura de estradas clandestinas no lado peruano da fronteira, que facilitam a circulação de criminosos e a conexão entre rotas terrestres, fluviais e aéreas. Em nota enviada ao GLOBO, o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) informou que a Polícia Federal instaurou um inquérito para apurar a invasão à Terra Indígena Kampa do Rio Amônia e que as investigações seguem sob sigilo. A pasta também afirmou que, desde 20 de julho, está em andamento a Operação Atalaia do Juruá, no âmbito do Plano Amazônia: Segurança e Soberania (AMAS), reunindo forças federais, estaduais e órgãos parceiros para ampliar a presença do Estado na região, combater o crime organizado, o tráfico de drogas, os crimes ambientais e outros ilícitos transfronteiriços, além de reforçar a proteção às comunidades indígenas. (*Estagiário sob supervisão de Alfredo Mergulhão)