“Quem é que cuida dos rios?”, pergunta Teyãko Wewito, presidente da Associação Apiwtxa da Terra Indígena Kampa do Rio Amônia, no Acre. “Passa quem quer.” O líder Ashaninka descreve uma fronteira porosa na qual o Estado some quanto mais se afasta de Marechal Thaumaturgo­ e se embrenha na mata. Nas últimas semanas, homens armados, operações policiais e gabinetes de Brasília tomaram o cotidiano de seu povo.

Na noite de 6 de julho, a ameaça chegou à aldeia Apiwtxa. Ao menos cinco homens armados, falando espanhol, entraram no território atrás de lideranças. Wewito viajava naquele dia. Ameaças já circulavam pela região. Os invasores foram à casa do irmão dele, Moisés Piyãko, e encontraram só o filho, que correu ao vê-los. O grupo rondou a região e sumiu na madrugada.

No Peru, o narcotráfico avança e se aproxima de madeireiros e outros grupos criminosos. O interesse no território brasileiro é geográfico, diz Wewito. Organizações miram corredores para municípios acreanos. “Querem usar o rio que passa no nosso território, para fazer suas rotas. E nós não aceitamos.” Os Ashaninka barraram passagens e participaram de detenções na região.

O risco havia aparecido numa expedição de barco ao território peruano, organizada por Benki Piyãko, presidente do Instituto Yorenka Tasorentsi, para percorrer lugares sagrados. Wewito fez metade do percurso. Moradores tentaram barrar a comitiva e chegaram informações de uma emboscada armada nas cabeceiras do Amônia. “Estavam esperando para matar todos que passassem, principalmente os líderes.” Uma retirada por helicóptero fracassou, e o grupo voltou por onde tinha vindo.