Mesmo sem o aval do presidente, Congresso aprovou lei para expandir o número de moradias, mas escassez de mão de obra, em boa parte estrangeira, pode atrasar planos 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Pessoas observam obra abandonada em West Hollywood, nos EUA, que foi dominada por coiotes — Foto: Mario Tama/Getty Images/AFP No mês passado, o Congresso dos EUA aprovou um dos mais ambiciosos planos para ampliar a oferta de moradias acessíveis e reduzir o déficit habitacional na maior economia do mundo. Mas ao mesmo tempo em que os parlamentares, especialmente os republicanos, comemoram e calculam dividendos eleitorais, as políticas migratórias que eles também apoiaram podem ser um grande entrave para a construção das novas casas. A Lei do Caminho para a Habitação do Século XXI foi apoiada por democratas e republicanos e traz uma série de ações voltadas a reduzir o preço de residências e amenizar o déficit habitacional estimado em cerca de 1,5 milhão de unidades. Há normas para flexibilizar regras de zoneamento, limites à quantidade de residências familiares que grandes investidores podem adquirir e incentivos para reformas e novos projetos. Por conta da recusa do Congresso em aprovar uma polêmica lei que muda as regras eleitorais, o presidente Donald Trump não sancionou tampouco vetou a medida, que entrou em vigor mesmo assim. — É o projeto de lei sobre habitação mais importante e abrangente deste século — disse Shaun Donovan, presidente da Enterprise Community Partners e ex-secretário do Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano durante o governo Obama, ao New York Times. — Ele contém dezenas de dispositivos que, em conjunto, atacam diretamente o desafio habitacional mais importante do momento: a nossa oferta de moradias. O plano deve testar os limites de um setor que já enfrenta a falta de trabalhadores qualificados. Estimativas apontam que, para começar a sanar o déficit habitacional, seriam necessários até 723 mil novos profissionais. Muitos deles vindos de outros países. Números da Associação Nacional de Construtores de Casas (NAHB) apontam que há cerca de três milhões de estrangeiros em obras ao redor dos Estados Unidos. Mais da metade em quatro estados: Califórnia, Texas, Flórida e Nova York. “Estes não são apenas os estados mais populosos dos EUA; como tradicionais portas de entrada, eles também dependem particularmente de mão de obra estrangeira no setor de construção”, afirma a NAHB, em relatório recente. “Os imigrantes representam 41% da força de trabalho da construção civil na Califórnia. Na Flórida e no Texas, 38% dos trabalhadores da construção são estrangeiros. Em Nova York, 37% dos trabalhadores do setor de construção vêm do exterior.” Um contingente que inclui um número considerável de trabalhadores em status migratório irregular — os “ilegais”, como se referem a eles Trump e os apoiadores de políticas restritivas. O Centro para os Estudos da Migração estima que até 54% dos estrangeiros que atuam na construção não tenham os vistos necessários. No Texas, um em cada quatro trabalhadores do setor está nesta situação, um contingente de cerca de 300 mil pessoas. — À medida que o Texas cresce, devemos apoiar vias legais que reflitam as necessidades da força de trabalho do nosso estado — disse Glenn Hamer, presidente da Associação de Negócios do Texas. — Precisamos de políticas de imigração que fomentem a inovação e nos permitam fazer ajustes, garantindo que todo texano, seja imigrante ou nascido nos EUA, tenha a oportunidade de prosperar em uma economia em rápida transformação. Até meados dos anos 1960, o setor da construção era um terreno dominado pelos sindicatos, com salários acima da média nacional, direitos trabalhistas (incluindo plano de saúde) e equipamentos adequados. Um caminho que muitos homens nascidos nos EUA viam como o ideal para alcançar o tal “Sonho Americano” na forma da casa própria, carros e uma vida estável nos subúrbios. Na década seguinte, quando os EUA viveram choques econômicos e sociais, os empreendedores, especialmente em projetos habitacionais, reduziram valores e benefícios, afastando muitos dos sindicalizados. Nos anos 1980, com as políticas pró-imigração do republicano Ronald Reagan, o mercado ganhou novos profissionais qualificados, dispostos a longas jornadas e abertos a salários menores. Muitos cruzavam a fronteira já sabendo as funções que desempenhariam no canteiro de obras e quanto receberiam por isso. — Certo dia, eu estava trabalhando. Virei-me enquanto estava no telhado e percebi que, por acaso, eu era o cara mais velho e o mais branco dali. Fiquei imaginando o que tinha acontecido com todos os outros caras brancos. De verdade. Eles tinham ido para outros lugares, e ninguém mais queria fazer aquele trabalho — disse Matt Moore, um trabalhador sindicalizado do setor da construção civil, ao podcast The Daily, do jornal New York Times. Dentro do sem fim de paradoxos que compõem os Estados Unidos da América, a imigração é um dos mais complexos e que mais evocam emoções. A defesa de uma fronteira forte é quase consenso no meio político, mas deportações em massa — como as promovidas por Barack Obama e, agora, por Donald Trump — causam frenesi em alguns e calafrios em outros, não apenas nos estrangeiros que temem ser mandados para outros países. “Nos últimos 10 meses, vi operações do ICE (polícia migratória dos EUA) paralisarem empresas de construção em todo o sul do Texas”, escreveu, em artigo para o jornal Houston Chronicle, o empresário Mario Guerrero, diretor-executivo da South Texas Builders Alliance. Guerrero, que votou em Trump na última eleição, quando o republicano fez da promessa de deportações de até 10 milhões de pessoas uma bandeira, afirmou que a repressão migratória ampliou o déficit de profissionais no setor, e fez com que empreendedores, como ele, repensassem investimentos. Ele mencionou casos de empresas que entraram com pedido de falência porque os funcionários deixaram de aparecer, mesmo aqueles com documentação regular, por medo do ICE. — A construção é um processo sequencial; portanto, a escassez de mão de obra em uma etapa elimina trabalho na etapa seguinte — disse ao GLOBO Dayin Zhang, professor de Economia Imobiliária na Universidade de Wisconsin-Madison e um dos autores de um estudo que analisa os impactos de deportações em massa sobre o mercado imobiliário.. Um dos principais argumentos dos que defendem as deportações e restrições a dezenas de países, como Stephen Miller, arquiteto da política migratória de Trump, é que elas trarão de volta aos “americanos” os empregos perdidos. — Se os trabalhadores sem documentação fossem meros substitutos mais baratos, sua remoção deveria elevar os salários e atrair trabalhadores americanos. Não é isso que observamos: os salários de trabalhadores provavelmente sem documentação em funções de menor qualificação na construção subiram cerca de 6,4%, enquanto os salários de trabalhadores nascidos nos EUA não apresentaram aumento — destacou Zhang, citando seu estudo. De acordo com estudo da Fundação Nacional para a Política Americana, quase um milhão de estrangeiros deixaram o mercado de trabalho dos EUA entre março de 2025 e fevereiro de 2026. Mas, no mesmo período, aponta o levantamento, o desemprego entre brancos passou de 4,4% para 4,7%. O percentual da população empregada acima de 16 anos passou de 61,4% para 61%. “As políticas da administração Trump sobre imigração ilegal e legal reduziriam o número projetado de trabalhadores nos Estados Unidos em 6,8 milhões até 2028 e em 15,7 milhões até 2035, além de reduzir a taxa anual de crescimento econômico em quase um terço, prejudicando o padrão de vida dos EUA”, aponta análise da Fundação.