Maior parte dos deportados não tinha condenações criminais, e ao menos 600 eram menores de idade, diz análise Imigrantes da Venezuela, que tiveram seus compromissos de asilo com autoridades dos EUA cancelados horas após a posse de Trump, olham para a fronteira fechada de um abrigo administrado pelo governo no México — Foto: Paul Ratje/The New York Times RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 29/05/2026 - 15:38 Trump deporta 21 mil para países perigosos, incluindo menores, entre 2025-2026 O governo de Donald Trump deportou mais de 21 mil pessoas para países considerados perigosos, como Irã e Venezuela, entre 2025 e 2026, segundo análise do Deportation Data Project. A maioria dos deportados não tinha condenações criminais e 600 eram menores. Especialistas criticam a política, alegando violação de normas internacionais e destacando o conflito entre a segurança dos deportados e alertas de viagem emitidos pelo próprio governo dos EUA. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO O governo de Donald Trump deportou mais de 21 mil pessoas para países que os próprios Estados Unidos classificam como perigosos demais para visitas de cidadãos americanos. Os dados, obtidos pelo Deportation Data Project direto do Serviço de Imigração e Controle de Alfândega (ICE), foram analisados pelo Marshall Project e divulgados pelo jornal britânico Guardian na sexta-feira. As deportações ocorreram entre a posse do presidente, em janeiro de 2025, até o último mês de março, e incluíram zonas de guerra, países em colapso institucional e regimes acusados de graves violações de direitos humanos. Na lista estão lugares como Ucrânia, Haiti, Venezuela, Afeganistão, Somália, Myanmar e Irã. Os alertas oficiais do Departamento de Estado citam riscos como terrorismo, sequestros, detenções arbitrárias, violência armada e agitação civil. Ainda assim, os voos de deportação seguiram ocorrendo rotineiramente. A maior parte das pessoas deportadas não possuía condenações criminais, segundo os dados analisados, e pelo menos 600 eram crianças e adolescentes. O caso do Irã se tornou um dos exemplos mais emblemáticos da política adotada pelo governo. Isso porque, nos 13 meses que antecederam a guerra atual, iniciada em 28 de fevereiro, mais de 200 pessoas foram deportadas dos EUA para o país — mesmo com Washington acusando publicamente o governo iraniano de repressão e abusos contra direitos humanos. O Departamento de Estado também orientava cidadãos americanos a não viajarem ao território iraniano “sob hipótese alguma”. Neste ano, enquanto já avaliava planos para uma ofensiva militar contra o Irã, o governo americano também mantinha deportações para o país. Apenas entre o fim de janeiro e os dias que antecederam os bombardeios americanos e israelenses em território iraniano, 18 pessoas foram enviadas à República Islâmica pelas autoridades migratórias dos EUA. Desde setembro, foram pelo menos três aviões com deportados partindo do país rumo ao Irã, segundo a organização Human Rights First, que monitora voos de deportação do ICE. Entre os passageiros estavam um convertido ao cristianismo e um dissidente político, ambos considerados vulneráveis à perseguição pelas autoridades iranianas. O ICE não comentou os critérios e procedimentos adotados para deportar pessoas para países considerados inseguros. O sistema de alertas de viagem do Departamento de Estado atualmente lista 23 países para os quais cidadãos dos Estados Unidos são aconselhados a não viajar, e os comunicados ressaltam que as recomendações são destinadas a americanos e não a estrangeiros. Para especialistas em imigração e direitos humanos, no entanto, as deportações podem entrar em conflito com normas internacionais estabelecidas e adotadas pelos próprios EUA. Susan Akram, professora da Clínica Internacional de Direitos Humanos da Universidade de Boston, classificou a política como “imoral e totalmente desumana”. Em entrevista ao Guardian, ela destacou que a legislação internacional proíbe enviar solicitantes de asilo para lugares onde suas vidas ou sua liberdade estejam ameaçadas. Ela também destacou que a legislação americana e acordos internacionais vetam o envio de qualquer pessoa para países onde exista risco de tortura, independentemente da situação migratória. — Se os Estados Unidos violam o direito internacional ao tratar estrangeiros dessa maneira, abrem espaço para que outros países façam o mesmo com cidadãos americanos — disse. Andrew Arthur, ex-juiz de imigração e pesquisador do conservador Center for Immigration Studies, por sua vez, afirmou ao veículo que qualquer pessoa deportada para um desses países teve “múltiplas oportunidades previstas na legislação americana” para contestar sua deportação. Se acabou deportada, disse, foi porque “não lutou contra a remoção na corte de imigração ou porque pediu proteção e um sistema de devido processo bastante robusto” concluiu que não havia risco suficiente para impedir o retorno. Tensão na Venezuela A Venezuela aparece entre os principais destinos das deportações. Apesar de ter sido considerada por anos um dos países mais perigosos do mundo pelo próprio Departamento de Estado, mais de 18 mil pessoas foram enviadas para lá pelo governo Trump, segundo a análise do Marshall Project. Cerca de 200 deportados não eram venezuelanos. As deportações ocorreram inclusive em períodos de forte tensão no país. Dados do ICE mostram que mais de 100 pessoas foram enviadas à Venezuela na semana anterior e posterior às operações americanas que resultaram na queda de Nicolás Maduro e de sua mulher do poder. Juan Pappier, vice-diretor para as Américas da Human Rights Watch, afirmou que a situação de segurança no país continua crítica. — Há bairros inteiros controlados por gangues criminosas que impõem regras próprias e matam quem não obedece — disse. — Existe uma hipocrisia evidente quando os EUA classificam um país como perigoso e, ao mesmo tempo, deportam pessoas para lá. Grande parte dos países considerados mais perigosos pelo Departamento de Estado também integra a lista de nações cujos cidadãos podem solicitar o status de proteção temporária nos EUA. O mecanismo foi criado pelo Congresso para permitir que estrangeiros permaneçam e trabalhem legalmente no país enquanto suas nações de origem enfrentam guerras, crises humanitárias ou colapsos institucionais. O governo Trump tentou encerrar o benefício para pelo menos nove países, entre eles Venezuela, Haiti, Somália e Afeganistão. Especialistas afirmam que muitos desses locais continuam oferecendo riscos severos. O alerta oficial do Departamento de Estado para o Haiti, por exemplo, menciona sequestros, violência armada, terrorismo, agitação civil e falta de estrutura médica. Ainda assim, mais de 1,3 mil pessoas foram deportadas para o país durante o governo Trump, e centenas foram enviadas para Somália e Afeganistão. — Isso contradiz completamente o propósito do status de proteção temporária — disse Jennifer Chacón, professora da Faculdade de Direito de Stanford especializada em imigração. Longo histórico A prática, porém, não começou no atual governo. Administrações democratas e republicanas já deportaram imigrantes para países em crise anteriormente. Durante um período de aumento da migração haitiana, por exemplo, o governo Joe Biden (2021-2025) deportou dezenas de milhares de pessoas para o Haiti, apesar da deterioração das condições de segurança no país. Na época, o Departamento de Estado mantinha um alerta oficial para o território haitiano. Em alguns casos, o governo Trump deportou pessoas até mesmo para países com os quais os Estados Unidos não mantêm relações diplomáticas. Os dados do ICE apontam que três pessoas foram enviadas para a Coreia do Norte. Já no caso do Irã, segundo o New York Times, as deportações exigiram uma rara coordenação entre Washington e Teerã. — Parece simplesmente uma política horrível — disse Ryan Costello, diretor de políticas do National Iranian American Council, acrescentando que os EUA denunciam o regime iraniano como autoritário e repressivo “ao mesmo tempo em que se preparam para enviar pessoas de volta justamente para esse governo”. — E ainda para uma guerra que os EUA pretendiam iniciar. (Com New York Times)