Entre janeiro de 2025, no início do mandato de Donald Trump nos Estados Unidos, até 30 de abril deste ano, 4.199 brasileiros foram deportados pelo ICE (Immigration and Customs Enforcement), o Serviço de Imigração e Alfândega americano, e outros 17 mil aguardam, presos, para serem incluídos em voos de volta ao Brasil. No total, segundo dados do Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania, foram 51 voos pagos pelo governo daquele país, em geral com destino ao aeroporto de Confins, na região metropolitana de Belo Horizonte (MG). A escolha por Confins se deu a partir de negociações diplomáticas, em razão de a metade dos cidadãos “retornados” serem mineiros. Em seguida, vêm Rondônia, com 11%, e São Paulo, com 10%. Uma pesquisa realizada pelo programa federal “Aqui É Brasil”, lançado oficialmente em agosto do ano passado, mostra que 85% deles são homens, que viajaram sozinhos (93%) e são majoritariamente jovens. Desses, 31% têm idade entre 18 e 29 anos, e outros 31%, entre 30 e 39 anos. Com relação à educação, 42% tinham concluído o ensino médio. Já 85% trabalharam nos EUA em jornadas de mais de oito horas diárias, especialmente na região Nordeste do país — em estados como Massachussetts, Nova York, Nova Jersey — ou Flórida. — No início, os voos com deportados brasileiros vinham uma vez por mês, depois a cada 15 dias, e agora são semanais — afirma a ministra dos Direitos Humanos, Janine Mello. — Foi então que instituímos o “Aqui É Brasil”, que busca aprimorar as etapas de acompanhamento e reinserção econômica dessas pessoas. Violação de direitos O programa inclui o encaminhamento dos cidadãos a serviços de saúde e de documentação, apoio logístico para retorno às cidades de origem, bem como contatos com familiares. Capacitação e políticas de microcrédito, para empreendedores, também estão entre as ações do “Aqui É Brasil”. A ministra confirma ainda que sua pasta vem mapeando eventuais violações de direitos humanos durante o processo de deportação dos EUA. Foi o que aconteceu com o açougueiro e ajudante de obras Gilson Dias de Andrade, 47 anos, mineiro de Governador Valadares. Em 2021, ele contratou um serviço conhecido dos imigrantes ilegais brasileiros por “cai-cai”. Com ajuda desses “coiotes”, viajou de avião, com a esposa e duas filhas, até a Cidade do México por um custo total de US$ 32 mil, segundo disse. Da capital mexicana, foi de carro até a divisa com o estado americano do Arizona. Lá, entrou a pé nos EUA com a família, em roteiro já “coreografado” previamente, e se entregou à polícia da fronteira. Ficou preso em um abrigo por três dias. Após o período, o casal e as filhas gêmeas de 11 anos foram liberados, e Andrade foi o único da família a receber uma tornozeleira. Seguiram para Melbourne, na Flórida, onde ele já tinha emprego informal para trabalhar na construção civil. Entregar-se, antes do início do segundo mandato de Trump e a mudança de postura do ICE, era a melhor alternativa para este tipo de migrante, já que assegurava o ritual de prisão em abrigos, audiência judicial, colocação de tornozeleira eletrônica e a posterior liberação para chegar ao destino escolhido. A outra seria atravessar o deserto fronteiriço, com risco de morrer de sede, fome e até mesmo ser assassinado por franco-atiradores ou pela polícia, que o encararia como fugitivo. — Inicialmente, ganhava US$ 90 por dia, para trabalhar das 9h da manhã às 17h, mas, com o tempo, passei a ganhar US$ 150 a diária — comentou. — (Em agosto) fui parado no trânsito por um guarda que mentiu que a luz da placa do meu carro estava queimada. Andrade foi entregue ao ICE e, em quatro meses, passou por nove detenções em estados como Flórida, Texas e Louisiana. Ele foi deportado em 18 de novembro e, desde a apreensão, está separado da esposa e das filhas, que permaneceram em solo americano. — A comida nessas prisões era muito ruim — lembra. — Tive muita diarreia e perdi oito quilos. Rede de contrabando A professora Sueli Siqueira, da Univale em Governador Valadares, estuda o tema da emigração local para os Estados Unidos desde 1998. Em suas pesquisas, constatou que, em “49,9% dos domicílios de Governador Valadares, ao menos um integrante tem experiência com migração internacional”. — Governador Valadares sempre recebeu muitos imigrantes, incluindo alemães, libaneses e americanos, que vieram trabalhar na extração de mica, ferro e na construção da linha férrea durante a Segunda Guerra Mundial — relata. — A partir de 64, jovens fizeram intercâmbio e voltaram com informações sobre como conseguir trabalho e emigrar para os EUA, fluxo que se intensificou nos anos 80. O conselheiro e chefe da Divisão de Comunidades Brasileiras e Assistência Consular do Itamaraty, Bruno Abreu, afirma que a atuação de redes internacionais de contrabando de pessoas aumentou exponencialmente o número de brasileiros que vão atrás do sonho americano de maneira irregular. — Em 2009, apenas 800 a 900 brasileiros foram pegos na fronteira. Em 2021, esse número chegou a 100 mil — contabiliza. Segundo Abreu, o Itamaraty estima que 2,9 milhões de brasileiros vivam nos EUA. Desse total, 250 mil não estão regularizados, de acordo com a instituição americana Pew Research, que se debruça sobre o tema, e apenas 37 mil passam por processo judicial, com possível deportação.