Faltou profundidade. Faltaram personagens cruciais na obra original. Cedeu às pressões da correção política. Reduziu o papel das mulheres. As armas e armaduras não existiam no tempo da história, Aliás, aquele sujeito de rosto oculto pelo capacete e armadura de peitorais definidos é o Agamenon ou o Batman? Desde seu lançamento, a adaptação de Christopher Nolan de "A Odisseia", de Homero, sofreu mais ataques do que Odisseu (Matt Damon) sofre na tentativa de voltar à Ítaca depois dos dez anos em que lutou na Guerra de Troia. Mas como o protagonista homérico, a adaptação de Nolan, primeiro filme totalmente rodado com a tecnologia para a exibição em Imax, vem triunfando onde conta para Hollywood: na bilheteria. Em todo o mundo, o filme acumula, por enquanto, uma bilheteria superior a US$ 650 milhões. As estimativas foi de que tenha custado R$ 250 milhões. Para subsidiar o chope com análise depois do filme - se ainda houver fôlego para isso depois de três horas de projeção, que exige saber escolher o momento certo de ir ao banheiro no meio da sessão - veja abaixo algumas das pedradas na obra de Nolan que mais repercutiram. Da mais recente às mais antigas. É mito grego ou filme da Marvel? Contando histórias da mitologia helênica de uma maneira bem-humorada mas sem superficialidade, o professor e linguista Cláudio Moreno tornou o podcast "Noites gregas" um sucesso no Brasil. Atendendo a pedidos dos ouvintes, Moreno divulgou no sábado sua análise da adaptação de Nolan. Apesar de reconhecer que não dá para exigir fidelidade na transposição de um texto para imagens, e mesmo um filme de três horas teria de deixar algo da epopeia homérica de fora, não foram poucas as críticas feitas por esse divulgador da cultura grega clássica. Que, aliás, está justamente contando a história da Odisseia nesta temporada do podcast. Algumas das críticas de Moreno são: Segura, peão: O professor lembrou que mesmo na Antiguidade mítica, a lei da gravidade funciona - e seria difícil deixar em pé sobre apenas duas patas o Cavalo de Troia, posição que deixa Ulisses e outros gregos desconfortavelmente nos fundos da parte interna da escultura de madeira. Moreno também estranhou a maré ameaçando afogar os soldados escondidos no cavalo: o professor lembrou que as marés no Mediterrâneo são muito tranquilas, e na região onde fica Troia, variam apenas 30 centímetros, a extensão de uma régua escolar. Zendaya: como Atena (à direita), uma jovem chorosa? — Foto: Foto: JULIEN DE ROSA / AFP e Divulgação Desempoderadas: O professor considerou pueril a declaração de Lupita Nyong'o, a intérprete de Helena (e de sua irmã Clitemnestra), de que Homero deveria ter dado mais voz às personagens femininas: para o podcaster, quem não deu voz às mulheres na obra foi Nolan, reduzindo as participações da própria Helena, a sábia e misteriosa Circe (Samantha Morton) a uma mal-humorada amarga, a amorosa e divina Calypso (Charlize Theron) a uma cuidadora, e a poderosa Atenas a uma adolescente lamentosa encarnada por Zendaya. Muita ação, pouco texto. Onde foram parar as conversas de Odisseu com Polifemo, cruciais para que ele saísse da caverna em que é preso com seus companheiros pelo cíclope? E o encontro com a mãe e Aquiles no reino dos mortos, momentos pungentes na narrativa homérica - especialmente porque, depois de morrer jovem mas cheio de glórias, como havia escolhido, o maior dos guerreiros atenienses, protagonista da "Ilíada", reconhece que bom mesmo é viver muito, ainda que de forma obscura. ...Mas é bonito de se ver. Apesar deste e de outros reparos, Moreno reconhece que "A Odisseia" tem boas cenas de ação e um visual impressionante, nas cenas mostrando a natureza. Fogo amigo da tradutora Nolan citou como uma de suas inspirações a tradução para o inglês feita por Emily Wilson, a primeira mulher a verter os versos homéricos para a língua britânica. A menção elogiosa foi retribuída com uma saraivada de bordoadas em um artigo na London Review of Books da professora de estudos clássicos da Universidade da Pensilvânia. Entre elas: Falta de profundidade. Para Wilson, faltou densidade psicológica, emocional, política e ética à narrativa de Nolan. que comparou a uma “queima de fogos de artifício”. Para a professora, "a visão do filme é confusa demais, e seus personagens, pouco desenvolvidos demais, para entregar o que ele sugere em termos de grandes ideias — embora seja muito eficiente ao retratar grandes explosões e gigantes imensos" Matt Damon como o protagonista de "A Odisseia" — Foto: Reprodução Quem sou eu? Para onde vou? A professora anglo-americana também reclamou que as motivações dos personagens para o que fazem ou dizem não são convincentes - não basta querer apenas voltar para casa depois de dez anos de guerra ou evitar ser devorado vivo por um cíclope, aparentemente. Cadê os prazeres da carne? Mas não é só isso que falta à "Odisseia" de Nolan para a professora: "Não há cenas de sexo, e toda a comida parece horrível", escreveu. Respeita as mina: Como o professor Moreno, Wilson reclamou que as personagens femininas foram enfraquecidas na adaptação. Apenas mudou de metáfora em relação à Calypso: onde o brasileiro viu uma cuidadora, a professora viu uma "terapeuta particular". Lupita Nyong'o como Helena — Foto: Divulgação Inclusão para quem, cara-pálida? O uso de atores não-brancos foi fonte de críticas de Elon Musk. Wilson também não gostou, mas por outro motivo: para a tradutora, foi só para inglês ver, porque eles estão em papéis secundários e estereotipados voltados apenas para prestar auxílio ao protagonista branco. ... Mas nem tudo é ruim. No fim das contas, Wilson também dá um desconto e reconhece que o filme tem um impacto cultural positivo por atrair o público de volta aos cinemas e impulsionar o interesse em Homero. Talvez essa benevolência seja fruto das próprias críticas que ela enfrentou que publicou a sua versão da "Odisseia": também foi acusada de simplificação e de uma modernização vazia. E de simplesmente contar outra história, quando fez escolhas como traduzir a palavra polytropos, que tem um sentido positivo, como "engenhoso" ou "de muitos recursos", "de muitos artifícios", como apenas "complicado". O que muita gente é, mesmo não sendo engenhosa nem esperta como Odisseu. Elon Musk — Foto: Brendan SMIALOWSKI/AFP Não vi e não gostei Moreno e Wilson, como outros críticos nas redes e fora delas, ao menos foram ao cinema antes de começar a reclamar de "A Odisseia". O bilionário Elon Musk não esperou tanto assim: atacou a produção antes da estreia. Homero woke. Musk não gostou de saber que Lupita Nyong'o havia sido escalada para interpretar Helena de Troia e sua irmã gêmea, Clitemnestra, e o ator trans Elliot Page como um soldado. Promessa ou ameaça? Na sua plataforma X, o bilionário disse que a obra "perdeu a integridade" e anunciou planos de usar a IA para uma versão alternativa "historicamente precisa" - embora a "Odisseia" seja uma narrativa mitológica, e não histórica. Leda e o Cisne, por Leonardo da Vinci: Zeus é pai de Helena, mas não de Clitemnestra — Foto: Reprodução A mais bela. Só que não. Curiosamente, o fato de no filme as irmãs Helena e Clitemnestra serem iguais, ou monozigóticas, não chegou a chamar a atenção nem dele nem de outros reclamões. Afinal, na lenda, Helena é filha de Zeus, que se transformou em cisne para fecundar a rainha Leda. E Clitemnestra, a filha de Tíndaro, o marido de Leda, numa versão mitológica de um fenômeno que é raro, mas existe, a superfecundação. Sendo as duas iguais, ficaria difícil a Afrodite, a deusa do amor, prometer a Páris a mais bela das mulheres da Terra, o motivo para a Guerra de Troia que tirou Odisseu da Ilíada: afinal, entre as duas mais belas, com qual Páris ficaria?
Falem mal, mas falem de mim: críticas à adaptação de 'A Odisseia' não evitam o sucesso de filme
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