Matt Damon é Ulisses na nova versão do épico de Homero — Foto: Divulgação Bastou o primeiro trailer de “A Odisseia” ser lançado para choverem críticas severas sobre o filme nas redes sociais. Alguns disseram que a linguagem soava coloquial demais, o que transformou em meme a cena em que Telêmaco, vivido pelo ator Tom Holland, se refere a Odisseu, seu pai, como “dad”. Outros reclamaram da escolha do elenco - uma discussão sobre “racebanding” (a alteração da etnia de um personagem), que logo descambou para argumentos racistas e transfóbicos. Implicaram com as armaduras, consideradas modernas demais. Atena teve seu traje criticado, como se a deusa fosse uma blogueira de moda malvestida. Houve até quem reclamasse de que não havia nenhum ator grego no elenco. Dos troianos, ninguém se lembrou. Com orçamento estimado em US$ 250 milhões e um elenco estelar, o novo filme do diretor Christopher Nolan, que estreia nesta semana, retoma uma questão que paira sobre as críticas de internet, sejam elas bem fundamentadas ou não. Afinal, até que ponto uma adaptação cinematográfica deve ser fiel à obra literária, ou ao fato histórico em que se baseia, para ser considerada fidedigna? “A ‘Odisseia’ sobreviveu por 2,5 mil anos sem desaparecer em nenhum momento, mas não sem alterações. Sempre houve pessoas interessadas em interpretar o texto e lidar com ele em contextos que não eram os originais”, diz Henrique Caldeira, doutor em história pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e criador do canal Estranha História. “Essas discussões mostram que se perdeu de vista que a obra sempre foi reinterpretada ao longo do tempo. Quando foi que ficamos tão obcecados pela historicidade perfeita?” Elizabeth Taylor na superprodução “Cleópatra”: gastos que quase levaram o estúdio à falência e romance tumultuado durante as filmagens — Foto: Divulgação Mais que uma mera questão de escolha estética ou artística, encontrar novas formas de ler um texto antigo é condição para manter sua relevância ao longo do tempo, já que o público para o qual ele foi originalmente escrito não existe mais, nem o contexto histórico em que foi gerado. Quando se fala da beleza indescritível de Helena, por exemplo, a referência do leitor - ou do artista, no caso de um pintor ou escultor - é sua própria noção do que é belo, não a de Homero, argumenta Caldeira. Nem se tem certeza de que Homero realmente existiu. Para parte dos historiadores, ele não era um indivíduo, mas uma escola de pensamento. O mesmo ocorre com a Guerra de Troia. O mais provável, concordam arqueólogos, é que se trate de uma narrativa mitológica inspirada em um núcleo de conflitos reais ocorridos na Idade do Bronze, mas sem a magnitude descrita no poema. O que se sabe com certeza é que não foi Homero quem criou as histórias do poema. Elas já eram conhecidas e estavam vivas na cultura grega da época. O autor era na verdade um aedo, um artista que compunha e cantava suas próprias poesias. “Vamos dizer que ele não receberia o Oscar de melhor roteiro, talvez o de roteiro adaptado”, brinca Caldeira. Alguns dos episódios mais famosos popularmente atribuídos à obra não fazem parte dela. É o caso do cavalo de Troia. Tanto a “Odisseia” - que narra a volta de Odisseu (ou Ulisses) ao seu lar em Ítaca -, como a “Ilíada”, que é cronologicamente anterior e relata a vitória grega sobre os adversários troianos, fazem apenas referências breves ao caso. Os detalhes aparecem na “Eneida”, de Virgílio, que foi escrita muitos séculos depois, entre os anos 29 a.C. e 19 a.C., no período de dominação romana. “Homero não precisava falar com muita clareza porque sua audiência não se sentava para ser surpreendida. Na ‘Ilíada’, ele trata Aquiles como ‘o pelida’ - o filho de Peleu -, e não explica isso porque as pessoas já sabiam”, diz o historiador. “Já na ‘Eneida’, Virgílio faz descrições detalhadas, uma vez que as histórias não eram mais tão vívidas.” Russel Crowe na arena de “Gladiador”: retorno luxuoso dos filmes épicos sobre a Antiguidade — Foto: Divulgação Mesmo a percepção sobre a relevância da ‘Odisseia’ variou com o tempo. Hoje considerada uma peça de erudição, o poema já teve sua leitura desaconselhada. Nos diálogos de Platão, o filósofo credita a Sócrates - seu mestre, que não deixou nada escrito - a convicção de que a obra não era adequada à formação do cidadão perfeito porque tratava os deuses gregos como humanos demais e trazia uma profusão de seres fantásticos, incluindo sereias, feiticeiras, ciclopes e gigantes canibais. Hoje, curiosamente, faz falta deixar de lado esses elementos ao recontar a epopeia de Odisseu, como ocorreu com o filme “Troia” (2004), opina Caldeira. A narrativa mitológica, com os deuses do Olimpo agindo nos bastidores, ajuda a explicar as motivações humanas e faz o enredo fluir. Em “A odisseia”, esses elementos estão presentes, com personagens como o ciclope Polifemo, os lestrigões, a feiticeira Circe e a ninfa Calipso. “É importante preservar o fantástico”, diz o historiador. “Tratar uma narrativa mitológica sem esses elementos seria como fazer um filme bíblico sem Deus.” Para Lorenna Montenegro, professora de roteiro e especialista em adaptação literária para audiovisual, um livro é apenas o início, um caminho para um filme. “Manter a integridade [do original] é desejável, mas a integralidade é impossível”, diz ela, que também é crítica de cinema. A “Odisseia” tem 12 mil versos no original em grego. Uma edição impressa pode facilmente chegar a 500 páginas, o que não cabe na metragem de um filme comercial. Nem nos mais longos, como a produção de Nolan, que tem 2 horas e 53 minutos de duração. “É preciso fazer escolhas e concessões.” Existem três tipos diferentes de adaptação literária para o cinema, diz Montenegro, citando o teórico Geoffrey Wagner. O primeiro é a transposição literal, que busca máxima fidelidade ao livro, com o mínimo de interferências. No extremo oposto, o texto literário é apenas uma inspiração para o filme, com resultado distante do original. Entre ambos, há uma abordagem intermediária: a produção permanece próxima da fonte, mas apresenta características suficientemente fortes para identificá-la como uma obra autoral do diretor. É o caso da adaptação de Stanley Kubrick para “O iluminado”, de Stephen King, embora o escritor tenha odiado o resultado. “Os roteiristas do filme melhoraram o livro, que é muito verborrágico, e aumentaram a tensão ao concentrar a história no hotel abandonado.” O ponto fundamental não é sobre ser fiel à literatura, mas criar um filme que se comunique com o conteúdo original e, ao mesmo tempo, com o público a que se destina. Se uma obra do século XIX será adaptada para o século XXI, ela precisa refletir o “zeitgeist” - o clima cultural e social contemporâneo, sublinha Montenegro. Steve Reeves (à esq.) em ‘Hércules’: ex-mister Universo foi o rosto do gênero ‘espada e sandálias’, reação à Hollywood — Foto: Divulgação É o chamado processo de transmutação, defendido por outro teórico, o americano Robert Stam, que tinha fortes ligações com o Brasil e era fã de Clarice Lispector. “O que precisamos perguntar é: qual o propósito de uma obra de arte hoje?” Sandálias e espadaO filme de Christopher Nolan está longe de ser a única adaptação da “Odisseia”. Calcula-se que pelo menos 50 produções já tenham contado, pelo menos em parte, a história do rei que quase perdeu o trono e a família ao se ausentar para a guerra. O sobrevivente mais antigo é o filme mudo italiano “L’Odissea”, de 1911. Os italianos, aliás, são os principais responsáveis por um subgênero cinematográfico de imenso sucesso entre o fim dos anos 50 e meados dos anos 60 - os filmes de “espada e sandálias” ou “peplum”. A palavra é o correspondente francês (“péplum”) para peplo, uma túnica drapeada e presa na cintura que as mulheres gregas usavam na Antiguidade. No cinema, a palavra ganhou conotação negativa depois que críticos franceses passaram a usá-la de maneira jocosa para designar os filmes produzidos majoritariamente na Itália e passados na Grécia, Roma ou Egito antigos. As tramas eram quase sempre uma variação da jornada do herói que precisava enfrentar uma série de perigos para restaurar a Justiça e - por que não? - conquistar o coração da mocinha. “A Itália e, em menor escala, países como a Inglaterra, produziam esses filmes para fazer frente às superproduções de Hollywood e promover sua indústria cinematográfica, ao atrair público local que tinha interesse nessas histórias”, explica Montenegro. Em termos mais estritos, o rótulo “peplum” designava filmes de baixo orçamento e elenco pouco conhecido, mas o gênero guardava muitos elementos em comum com os épicos hollywoodianos, a ponto de esses filmes ficarem associados ao gênero, mesmo que em uma prateleira superior. É o caso de “Cleópatra” (1963). Estrelado por Elizabeth Taylor no auge da beleza, o filme quase levou a 20th Century Fox à falência, depois de consumir um orçamento que, em valores ajustados, ficaria entre US$ 330 milhões e US$ 450 milhões. Para piorar, o marketing do filme foi prejudicado pelo romance de Taylor e Richard Burton durante as gravações. Ambos eram casados com outras pessoas. Manter a integridade [do original] é desejável, mas a integralidade é impossível” Com “Spartacus” (1960), Kirk Douglas desafiou o Comitê de Atividades Anticomunistas do Congresso americano ao convidar o roteirista Dalton Trumbo para adaptar o romance de Howard Fast para as telas. Trumbo estava na “lista negra” de Hollywood e, por isso, não conseguia trabalho. Durante a fase de ostracismo, venceu dois Oscars de roteiro - por “A princesa e o plebeu” (1953) e “Arenas sangrentas” (1957) -, mas não pôde recebê-los porque escrevera sob pseudônimo. A popularidade de Douglas era tão grande, no entanto, que, apesar das pressões de bastidores, Trumbo voltou à atividade. Filmes bíblicos também são frequentemente associados ao gênero, como “Sansão e Dalila” (1949), estrelado por Victor Mature e Hedy Lamarr, e “Os Dez Mandamentos” (1956), do lendário Cecil B. De Mille. Mas o melhor exemplo talvez seja “Ben-Hur”, que recebeu 11 Oscars. Embora a história não esteja na Bíblia, o protagonista várias vezes encontra Jesus - que só aparece de costas e não tem ator creditado. Rodrigo Santoro mostrou o rosto ao interpretar o papel em uma versão menos conhecida, lançada nos cinemas em 2016. A trama do filme dos anos 50 traz um subtexto secreto. Insatisfeito com a motivação da rivalidade entre o príncipe Judah Ben-Hur e seu ex-amigo de infância Messala (vivido pelo ator Stephen Boyd), o diretor William Wyler pediu a Gore Vidal que pensasse numa justificativa mais forte. O escritor inseriu cenas que sugeriam que a dupla tivera um romance no passado. Numa delas, eles cruzam taças para tomar vinho, como um casal. O elenco foi instruído a guardar segredo do ator Charlton Heston, que era muito religioso. Por trás das telas, a animação quadro a quadro, ou “stop motion”, definiu a estética do gênero, sob as mãos hábeis de Ray Harryhausen. O diretor de efeitos especiais gravava objetos e miniaturas, que movimentava discretamente entre uma foto e outra. A técnica proporcionou a batalha mais famosa de “Jasão e os argonautas” (1963), em que sete esqueletos lutam com atores reais. A sequência, que impressiona até hoje, dura pouco mais de quatro minutos, mas levou quatro meses e meio para ficar pronta. O primeiro exemplar raiz do gênero foi “Hércules” (1958). Estrelado por Steve Reeves, que fora Mr. Universo, a produção italiana sedimentou o caminho para as produções que se seguiriam, muitas delas estreladas pelo fisiculturista e ator americano. Foi Reeves quem popularizou a figura do herói musculoso, que nos anos 80 seria retomada por atores como Sylvester Stallone e Arnold Schwarzenegger. O “peplum” teve momentos de prestígio, destaca Montenegro, com filmes como “Ulysses”, estrelado por Kirk Douglas, Silvana Mangano e Anthony Quinn. Sergio Leone, que se tornaria uma referência do western, rodou “O colosso de Rhodes” (1961), e Mario Bava, que ficaria conhecido como um mestre do horror, fez “Hércules no centro da Terra” (1961). À medida que o público perdia o interesse, no entanto, o filão foi se extinguindo, com as tramas se transformando em pastiches. “Hércules contra Sansão” (1963) reunia sob o mesmo enredo o semideus grego e o personagem bíblico, com uma mistura entre monstros marinhos e vilões filisteus. O gênero voltaria à tona no início dos anos 2000. Efeitos digitais substituíram a animação quadro a quadro e estrelas tomaram o lugar dos fisiculturistas, sob orçamentos generosos e crescentes. “Gladiador” (2000), protagonizado por Russell Crowe, teria custado US$ 110 milhões; “Alexandre” (2004), com Colin Farrell, US$ 155 milhões, e “Troia”, com Brad Pitt, US$ 175 milhões. O interesse por “A odisseia” mostra que, mesmo na era da inteligência artificial, o apelo para reinterpretar o passado parece inextinguível.
‘A odisseia’ de Christopher Nolan reacende obsessão por fidelidade histórica no cinema
Criar um filme que se comunique com o conteúdo original e, ao mesmo tempo, com o público a que se destina é mais importante que fidelidade à literatura, afirma especialista












