Nunca pensei que veria nosso sublime Homero transformado em material de guerras culturais. Ainda não assisti a "A Odisseia" de Christopher Nolan (o filme não chegou ao streaming), mas já dá para afirmar que a polêmica, como a maioria das controvérsias de nossa época, se funda sobre bases frágeis.

A crítica da militância antiwoke, encabeçada por Elon Musk, de que a película de Nolan é pouco fiel à obra original e profana o divino Homero fica entre o óbvio e o fora de lugar.

Quem estiver interessado em saber como Homero imaginou a guerra de Troia e o retorno do astuto Ulisses a Ítaca deve, com o perdão da tautologia, ler Homero. Pode até refinar seu entendimento recorrendo aos milhares de comentadores, uma tradição que tem início ainda na Antiguidade com os escoliastas de Alexandria e se prolonga até os dias de hoje com os estudos homéricos conduzidos nas universidades —as mesmas universidades que Musk e seus acólitos se empenham em combater.

Já quem vai ao cinema para ver o filme de Nolan estará, com o perdão da tautologia, sorvendo Nolan. Até há um parentesco entre o que aparece na tela e o que o poeta cantou em hexâmetros dactílicos, mas ele é tênue —e é assim mesmo que deve ser. Toda adaptação, releitura ou encenação de obra artística se converte numa outra obra e vem impregnada de questões do presente. Se não houvesse esse pressuposto de atualização, nem faria sentido levar ao palco novas montagens teatrais. Nós nos contentaríamos com o texto original, congelado. E cabe a cada diretor, dentro de sua liberdade de criação, definir quão fiel ele será às suas fontes.