A semana foi dominada por dois filmes que ainda ninguém viu. No Brasil, "Dark Horse", sobre Jair Bolsonaro. Fora do Brasil, "A Odisseia", de Christopher Nolan. Como essa é uma coluna nas páginas do noticiário internacional, vou falar do segundo.
Se o seu algoritmo for como o meu, é possível que tenha visto dezenas de publicações de homens furibundos com o fato de nesse filme ser uma atriz negra, Lupita Nyong’o, a representar o papel de Helena de Troia. Elon Musk, sempre ele, já disse que Nolan "perdeu a sua integridade" por essa escolha, e há gente que trata o caso como uma ofensa à Grécia, ao Ocidente e à civilização.
Mas o escândalo já vem da tradução escolhida para o filme, feita pela helenista Emily Wilson. Isso interessa-me: há muito que sigo a polêmica sobre esta tradução, a primeira em língua inglesa a ser feita por uma mulher e que homens conservadores usam como alvo do seu ódio por, supostamente, ser um ataque ao herói Ulisses enquanto homem.
O crime de Emily Wilson? Chamar-lhe "complicado".
O tema, fascinante, prende-se com a tradução a dar ao primeiro adjetivo que Homero usa para descrever Ulisses: πολύτροπος (leia-se polítropos), que aliás aparece no acusativo πολύτροπον (polítropon). À partida, a palavra não oferece grandes dúvidas: o prefixo poli- quer dizer "muitos" e é bem conhecido de palavras que usamos todos os dias; "tropos" é uma palavra que se usa para caminhos. De muitos caminhos.











