Volto a falar de "A Odisseia" por aqui depois de ler, nesta Folha, o texto de Martim Vasques da Cunha desancando a releitura cinematográfica do poema feita pelo diretor Christopher Nolan. O escritor investe de lança em riste contra o filme, dá razão a Elon Musk, dizendo que Nolan "se vendeu" e diz que a obra favorece "a extinção da memória" da obra de Homero.

Será mesmo? Algo me diz que Cunha está reagindo ao filme com base numa memória afetiva e idealizada do que seriam os épicos homéricos, e não com base no que de fato há neles. Além disso, seu raciocínio sobre o efeito de uma adaptação no legado da obra original tem premissas que me parecem falsas.

Começo pelos detalhes mais palpáveis. O autor lamenta que Nolan tenha retratado Penélope, mulher de Odisseu/Ulisses, "a mais fiel das esposas", cogitando reinar em Ítaca sem o esposo. Diz que o único rebento do casal, Telêmaco, "o mais leal dos filhos, perdeu toda a nobreza da juventude".

O escritor se esquece que, como bem aponta a helenista Natalie Haynes, Telêmaco, embora deva ter no mínimo uns 20 anos quando o poema começa, comporta-se, de início, como se fosse um adolescente de 14: é inseguro, grosseiro com a mãe e só consegue tomar a iniciativa de procurar notícias de Odisseu com a ajuda da deusa Atena. Mesmo após sua jornada de amadurecimento, ainda é incapaz de vergar o arco de Odisseu nas primeiras tentativas.